Conteúdo Autoral - Marcelo Madueño
INTRODUÇÃO E CONTEXTO
O Festival
O Wonderfruit acontece anualmente na Tailândia e completou em 2025 uma década de existência. Ao longo desses anos, deixou de ser apenas um festival alternativo de música para se tornar um ecossistema cultural multidisciplinar, operando 24 horas por dia durante quatro dias consecutivos.
O evento reúne 30.000 pessoas em múltiplos palcos com curadorias distintas, áreas dedicadas a wellness, arte, gastronomia, tecnologia, sustentabilidade e experiências imersivas. Não é um festival centrado em grandes headliners nem em picos de massa. A energia lá é outra: continuidade, diversidade e coexistência de ritmos.
A sustentabilidade é um ponto forte do evento: reutilização estrutural de palcos, lixo se torna obra de arte, integração com o ambiente natural e decisões de produção que priorizam longevidade em vez de impacto pontual. Ainda não é o estado da arte absoluto, mas está vários degraus acima da média global, e à frente da maioria dos festivais brasileiros nesse aspecto.
A Tailândia como hub de música eletrônica
O país vem se consolidando como um hub estratégico da música eletrônica na Ásia, combinando turismo internacional, infraestrutura, clima e uma política mais aberta para grandes eventos.
O anúncio do Tomorrowland na Tailândia em Dezembro de 2026, somado à presença do EDC no país, confirma essa tendência. O Wonderfruit ocupa um espaço diferente nesse ecossistema: menos comercial, mais autoral, mais próximo de um laboratório cultural do que de um produto de entretenimento de massa.
Público, ritmo e funcionamento
O festival opera 24 horas por dia durante quatro dias, o que muda completamente a lógica de consumo. Existem ciclos claros de experiência: manhãs contemplativas, tardes exploratórias, noites e madrugadas mais energéticas.
O público é majoritariamente internacional. É possível ouvir diversos idiomas em um mesmo percurso. Não consegui identificar uma cena local tailandesa explícita dominando o espaço, o que é curioso e, ao mesmo tempo, coerente com a proposta cosmopolita do evento (e do país).
A EXPERIÊNCIA
Mais do que um ponto de vista, os critérios pelos quais eu fiz a avaliação deste festival são os mesmos que sempre usei como ferramenta de qualidade para os meus eventos, e que ensino em uma das masterclasses do QAPro, meu curso de gerenciamento de projetos para eventos.
- Mundo do Evento: tudo o que constrói o “universo físico e operacional” do festival: acesso, palcos, decoração, estrutura, logística e serviços.
- Experiência Viva: o que acontece dentro desse mundo — música, arte, performances, jornadas, interações humanas. É onde a experiência ganha significado.
Vamos lá!
MUNDO DO EVENTO
Entrada, localização e acesso
O festival acontece em Pattaya, no sudeste da Tailândia, em um clube de campo a cerca de 30 minutos da cidade. O acesso é simples e fluido, seja por carro, táxi ou transporte privado. O estacionamento é um dos pontos altos:enorme, bem iluminado e claramente sinalizado.
A revista de segurança é leve. Vale um dado contextual importante: a taxa de criminalidade na Tailândia é cerca de 10 vezes menor que no Brasil, o que muda completamente a lógica de controle e tensão na entrada.
Detalhe inteligente: é permitido entrar com garrafa térmica, sem obrigar a compra do copo sustentável (que custava cerca de R$50). Parece pequeno, mas isso comunica confiança e respeito ao público.
O ponto fraco está no pós-entrada. Você é bem recebido, mas logo depois fica um pouco perdido. Falta um elemento narrativo ou espacial que “puxe” o participante para dentro do ecossistema do festival. Funciona, mas poderia ser mais intuitivo.
Palcos e ambientação
Os palcos são, em geral, muito bem resolvidos.
Baan Bardo e The Quarry são excelentes exemplos de palco como espaço cultural. As colaborações artísticas são visíveis e a possibilidade de assistir apresentações sentado, com conforto, muda completamente a relação com a música.
A repetição estrutural de palcos ao longo dos anos é um acerto ambiental e financeiro. O Brasil ainda trata o palco como item descartável — aqui há pensamento de longo prazo.
Já o palco SOT destoou negativamente: cenografia com materiais de baixa qualidade e acabamento ruim, criando uma quebra estética clara em relação ao restante do festival.
Decoração
Existe coerência estética em todo o evento. Bom gosto, integração com o ambiente natural e identidade clara. Nota 8/10. Festivais no Brasil em geral perdem comparativamente e isso se dá pelo fato de se preocuparem mais em escolher um bom acabamento do que a melhor estrutura que conversa com a estética do evento. Que fique claro também que não gosto de penalizar os eventos brasileiros pois (alguns) fazem o melhor que podem com o valor de ingresso que cabe no bolso do público. O que separa esse 8 de um 10 é obsessão por detalhe, algo que ninguém no Brasil domina ainda também e as referências, apesar de serem difíceis de visualizar, ficam com Tomorrowland e EDC.
Sonorização
Na maioria dos palcos, a sonorização foi muito bem resolvida: boa distribuição de caixas, volume adequado e cobertura eficiente. O único problema foi o Moonlight Stage. Por ser um micro palco espremido entre dois palcos maiores, o cruzamento de som prejudicava a experiência. Volume baixo e interferência externa comprometeram o espaço.
Ativações de marca
As marcas aparecem de forma integrada, sem poluição visual ou interrupção da experiência. As ativações dialogam com wellness, descanso, gastronomia e tecnologia É um modelo inteligente: marcas não tentam competir com o festival, tentam coexistir com ele.
Estrutura
Banheiros em quantidade mais do que suficiente sem praticamente nenhuma fila, e todos de alvenaria, pensados para longo prazo. Além disso, destaque para a oferta de toalhas e sabonetes líquidos especiais. Aqui a obsessão pelo detalhe compensou.
- Limpeza geral: o festival estava consistentemente limpo, mesmo com poucas equipes visíveis. Isso acontece porque o sistema ajuda já que os bares só entregam o copo sustentável, ou seja, menos lixo circulando. Ainda assim, existiam lixeiras com separação de materiais e caminhões com a frase “this is not trash”, reforçando a narrativa sustentável
- Segurança: poucos agentes visíveis. O perfil do evento é tranquilo e autorregulado. Segurança existe, mas não domina o espaço.
- Socorro médico: diversos postos de atendimento espalhados pelo festival, bem sinalizados e fáceis de localizar.
- Acessibilidade: aqui existe uma falha clara. Não há áreas específicas para PNE nos palcos e com o terreno irregular do evento (gramado) a circulação fica comprometida para cadeiras de rodas, provavelmente isso explica a quase ausência de pessoas com mobilidade reduzida no evento.
Atendimento e bares
O atendimento acontece diretamente no bar, que possui drinks autorais, bebidas leves como água de coco e sucos, nada de Red Bull ou estímulos artificiais. Água é gratuita disponível em vários pontos. O consumo de álcool é claramente baixo. Isso reflete um público mais consciente e uma curadoria que não empurra excessos.
Camping
O camping é um dos pontos mais bem resolvidos pois tem excelente estrutura de banheiros, é afastado dos palcos, o que proporciona silêncio real para dormir.
Curiosamente menos de 1.000 pessoas acampam, o que é pouco para o tamanho do festival. Curiosamente, os campings mais caros esgotaram primeiro, sinalizando que existe um público de alta renda que valoriza o evento, mas não valoriza áreas VIPS ou backstages, pois esses simplesmente não existem no festival.
App do festival: muito bem feito, com programação completa, mapa funcional e organização clara por categorias. Em um festival desse tamanho, com público internacional (que deve gerar rotatividade) , o app não é acessório — é parte da experiência. Aqui, ele cumpre bem o papel.
EXPERIÊNCIA VIVA
Música e artistas
O Wonderfruit possui uma curadoria consistente ao longo dos dias do festival. O que me chamou a atenção é que apesar do evento ser 24h, praticamente todos os palcos, exceto um, fecham durante a manhã, sinalizando um viés consciente do evento, ou um reflexo da cultura do público… ou até um pouco dos dois.
Em contraponto eu senti falta de um peak time todas as noites: faltou energia em diversos momentos-chave. Não pela falta de grandes headliners, porque eles não são obrigatórios para criar uma pista forte, mas pela construção do line-up. Eu me perguntei se era essa a proposta do evento. Todos os momentos funcionaram muito bem para mim, exceto o peak time. É sem dúvida uma questão de gosto pessoal. Dois festivais me vêm a cabeça para trazer uma comparação Ocidental. O primeiro é o Sónar Barcelona (programação diurna), e o segundo é o C6 Fest (de uma maneira musicalmente mais abrangente). Ambos apostam em artistas experimentais, mas constroem picos com mais precisão.
Agora colocando a lupa no line-up, o Wonderfruit teve ótimos nomes nesta edição. Do lado da discotecagem dou destaque para Pearson Sound, Britta Arnold, Tama Sumo b2b Lakuti, Theo Parrish e Objekt (que teve a pista fechada por 1 hora devido a lotação máxima). Do lado dos LIVES tive duas ótimas descobertas, a banda eletrônica Kerala Dust e o live super experimental de Eucademix, junto com apresentações dos veteranos Paranoid London, Rampue, A Guy Called Gerald e Daniel Brandt (parte do trio Brandt Brauer frick) que além de live com banda completa, teve direito a acompanhamento de um curta metragem.
Experiências Imersivas e Intervenções Artísticas
Entre os shows, acontecem momentos especiais que reorganizam o tempo do festival. Eles funcionam como vírgulas na frase longa que é o evento — pausas que evitam saturação e renovam atenção. Junto a eles são oferecidas “jornadas”, que são experiências imersivas (compradas à parte) temáticas e distribuídas pelo festival, que aposta forte na criação de um ambiente completo e diverso que vai muito além da música.
Essa programação é muito mais ampla do que o line-up musical, e envolve intervenções artísticas, culinária, apresentações visuais, workshops, palestras e práticas de bem estar. Pouquíssimos festivais no mundo tem esse posicionamento e na minha experiência até hoje o Wonderfruit é o mais completo. Foi difícil escolher uma lista condensada pois a oferta era muito vasta. Segue uma lista das minhas favoritas:
Momentos Especiais
- Cerimônia de Abertura Dhyana: Ritual que evoca a força das divindades locais para trazer força espiritual ao público e proteção para o espaço do evento
Workshops
- Brainwaves and Beats, A Neurosciência da Produção Musical
- Breakdance Para Iniciantes
- Indigo (Taidai). Você tinge sua própria camiseta, pendura e leva para casa como lembrança do evento.
Culinária
- Cozinha Cruzando Fronteiras: Uma Colaboração de Receitas Tailandesas e Birmanesa
- Pizza, Vinho e Amigos, Um workshop colaborativo com versão não alcoólica para crianças
- Antes do Banquete, Explorando o Mundo dos Aperitivos Tailandeses
Espiritualidade
- Cerimônia de Cacau
- Alinhamento de Chackra
- Dream Meditation
Diversos
- Palestra sobre o Mundo dos Cogumelos. O evento tinha um quiosque de “Mushrooms Shots”, onde você podia escolher entre Cordyceps e Lions Mane (em micro doses).
- Static Dance
- Imersão no Gelo e Sauna: para ajudar na recuperação muscular e cardiovascular
- Terapias Intravenosas: uma clínica no meio do festival onde o cliente escolhe se quer uma solução detox, recuperação ou energia, e recebe diretamente na veia.
Mobilidade e interação
Carrinhos de golfe customizados chamam a atenção no evento. Eles transportam produção e público, mas também funcionam como elementos lúdicos — como o carrinho em formato de tubarão. Pequenas decisões assim tornam a circulação menos funcional e mais divertida.
AVALIAÇÃO FINAL
O Wonderfruit é um festival muito bem equilibrado em todas as suas frentes. Ele não tenta agradar todo mundo, e isso é um mérito. Ele agrada muito bem a um público exigente, maduro e curioso culturalmente. Funciona como uma cidade temporária bem planejada: zonas claras, ritmos distintos, espaços de estímulo e de pausa.
Existem pontos a melhorar — principalmente no fluxo narrativo da entrada, no desenho de energia do peak time, na acessibilidade e em ajustes pontuais de cenografia e alimentação matinal. Nenhum deles é estrutural ou crítico.
Para quem produz eventos, fica claro: aqui não há improviso disfarçado de conceito. Há método, escolhas claras e coragem de sustentar uma proposta mesmo quando ela não é a mais óbvia.
Se você gosta de música eletrônica de vanguarda e de experiências de festival extra-pista de dança, esse é um evento muito interessante para conhecer.
Imagem de capa: Reprodução.

