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A música eletrônica está ‘viciada’ no passado? Como a nostalgia vem dominando o mercado atual

20 de Setembro de 2026
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Você já percebeu o quanto o passado mexe com a gente? Seja revendo registros fotográficos, relembrando histórias ou simplesmente ouvindo músicas que marcaram nossa juventude. Essa saudade agridoce chamada ‘nostalgia’ é mais poderosa do que a gente pensa.

Quando algo nos transporta para uma época específica, nosso cérebro ativa diferentes sistemas ligados à memória, emoção e recompensa. É por isso que uma canção de anos atrás pode nos despertar sensações mais facilmente que músicas recentes e originais.



O fenômeno que dominou à cena eletrônica

É impossível não notar como cada vez mais artistas estão olhando para trás para fazer o som do presente. Muitos clássicos dos anos 90, 2000 e 2010 vêm ganhando espaço através de novos edits, remixes e samples.

Para exemplificar, no Tomorrowland deste ano (um dos pontos altos da temporada de verão europeia), ao longo dos dois finais de semana, algumas das músicas mais tocadas pelos DJs eram hits do passado: "Levels", de Avicii, "Insomnia", de Faithless, e o remix para "Woops", de Bountyhunter, lançado originalmente em 1993.

Esse movimento passa longe de ser apenas uma impressão. A nostalgia se tornou o combustível da música eletrônica moderna, não apenas nas pistas de dança como também nas plataformas digitais.


O Beatport como termômetro

Nos últimos anos, algumas das músicas que chegaram no topo do Beatport foram justamente releituras de obras que já existiam.

Em 2025, Mau P – “The Less I Know The Better”, inspirada no hit do Tame Impala, ficou em 1º lugar no ranking geral. Em 2024, foi a vez de Chris Lake e FISHER com “Somebody (2024)”, recriando o sucesso de Gotye e Kimbra. E a lógica já vinha aparecendo antes: Em 2022, “Sete”, de BLOND:ISH e Francis Mercier, liderou com um sample de 22 anos atrás; e em 2020 o remix de “Keep Control”, do ARTBAT, levou o clássico do Sono de 2002 também ao topo anual do Beatport.

A nostalgia, nesse contexto, aparece não somente como uma sensação, mas como um produto vendável.


O reflexo na Copa do Mundo

Quem acompanhou de perto o Mundial deste ano percebeu que esse fenômeno se expandiu para além da nossa indústria.

"Titanium", de David Guetta, virou trilha sonora dos pré-jogos da competição. "One More Time", do Daft Punk, foi escolhida como música oficial de comemoração de gol da seleção francesa. E "Freed From Desire" de Gala, lançada em 1997, tomou as arquibancadas de forma espontânea.

Sucessos absolutos da música eletrônica encontraram, décadas depois, um novo palco.

Os eventos que o Brasil abraçou

Festas com temática nostálgica se espalharam pelo país nos últimos anos, respondendo a uma demanda que, quem enxergou primeiro, se deu bem.

Dois projetos que ilustram bem esse fenômeno são a Rewind, label do Laroc criada para celebrar a era de ouro da Dance Music trazendo ícones como Edward Maya, Ultra Naté, Robin S. e Alex Gaudino; e a festa Nostalgia da dupla Dubdogz, que passou por vários estados brasileiros e esgotou ingressos em menos de cinco horas em sua estreia.

Eventos como esses atraem não só o público da ‘velha guarda’, mas também uma nova geração disposta a conhecer uma vibe musical que não viveu a época das danceterias e discotecas.

Primeira edição da festa Nostalgia do Dubdogz - Foto: Reprodução.
Primeira edição da festa Nostalgia do Dubdogz - Foto: Reprodução.


Uma engrenagem de algo ainda maior

Todos esses elementos parecem fazer parte de um movimento ainda maior que efervesceu, principalmente, nas redes sociais. Perfis dedicados a resgatar imagens, vídeos e referências culturais do passado (festas, programas de TV, estéticas de época) foram se multiplicando e, em muitos casos, viralizando com um alcance que outros tipos de conteúdo raramente conseguem.

No início de 2026, por exemplo, a trend "2026 is the new 2016" tomou conta da internet. O conceito era relembrar um tempo que nem é tão distante, mas que já é passado o suficiente para gerar saudade da energia, dos comportamentos e, claro, das músicas.

Isso demonstra que o que vem rolando nos charts, nos sets e nas festas não é somente entretenimento, mas um reflexo de uma tendência cultural que é praticamente uma garantia de sucesso na atualidade.

@untold.festival

Best summer yet… Loading 🔋

♬ Closer (feat. Halsey) - The Chainsmokers


O alerta que vem de dentro

Em meio a esse cenário, nem todo mundo demonstra estar satisfeito. Chris Lake, uma das maiores referências do tech house global, levantou recentemente uma questão que poucos artistas têm coragem de falar: a house music estaria perdendo a criatividade.

Segundo ele, “90% ou mais” da cena atual estaria reciclando ideias, sons e referências antigas, e isso estaria ocorrendo menos por uma escolha artística genuína e mais por uma lógica de mercado que valoriza o que já é familiar em detrimento de algo completamente novo.

É um diagnóstico incômodo e honesto, considerando que ele mesmo não se isentou de fazer parte dessa dinâmica.


Vivemos um ciclo ou estamos dependentes?

A música sempre dialogou com o passado - samples, referências e releituras fazem parte da linguagem do gênero desde o princípio. O que talvez seja diferente agora é a proporção: quando a maioria das tracks mais vendidas do maior mercado de música eletrônica do mundo são versões de músicas que já existiam, algo estrutural está acontecendo.

Pode ser que seja um ciclo natural, já que a nostalgia tem essa característica: ela oscila, satura e eventualmente abre espaço para o novo.

Mas pode ser também algo mais duradouro, um mercado que aprendeu a precificar a memória afetiva, descobriu que o familiar vende mais que o desconhecido e passou a construir produtos culturais em torno dessa lógica. Se esse for o caso, o que sobraria de realmente inovador na cena que pode surpreender o público novamente? Será que o passado virou o único lugar onde a música eletrônica se sente segura? A resposta dessa questão só o tempo irá dizer.


Imagem de capa: Reprodução

Tags:
  • clássicos
  • hinos
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Sobre o autor

Caio Pamponét

Caio Pamponét

Formado em jornalismo pela UFBA e Redator/Social Media da Play BPM. Um apaixonado por música desde a infância que cultiva o sonho de viajar pelo mundo fazendo o que ama e conhecendo novas culturas. Respiro os mais diversos BPM's e faço da música o seu combustível diário.

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