O que é o Indie Tech, o novo gênero do Beatport que 'sequestrou' o chart de Indie Dance
No início desse mês de outubro, o Beatport oficializou a criação de sua nova categoria dentro da plaforma, o Indie Tech. A novidade chegou acompanhada de uma confessão rara vinda de uma grande plataforma de que algo não estava funcionando e era hora de corrigir.
Para entender o que gerou essa decisão, é preciso voltar um pouco no tempo.
De onde veio o Indie Dance
O Indie Dance não nasceu de uma fórmula pronta, mas de uma hibridização. No início dos anos 2000, Nova York fervia com a DFA Records, The Rapture e LCD Soundsystem construindo uma ponte entre o post-punk, electroclash, disco, synth-pop e a psicodelia dentro de uma estrutura eletrônica. Na Europa, selos como Kitsuné, Eskimo e Relish, e artistas como Soulwax, Tiga e Erol Alkan faziam algo parecido, cada um à sua maneira.
O resultado era tão difícil de nomear que nem existia o nome Indie Dance na época. Para o DJ Tennis, um dos nomes centrais do gênero na atualidade, a definição não passava pela sonoridade, mas vinha de uma questão sobre “atitude, abordagem e background”.
Essa imprecisão era justamente onde ficava a essência desse som e o tornava único, protegendo de ser facilmente replicado.
O problema que surgiu nos charts
Com o tempo, o Indie Dance encontrou no Beatport um lar que, paradoxalmente, acabou sendo parte do problema. Como a categoria era menos disputada do que 'Tech House' ou 'Melodic House & Techno', foi se tornando um destino conveniente para lançamentos que não se encaixavam bem em nenhuma outra prateleira. A faixa não era progressiva o suficiente para ser Progressive House, era synth demais para o Melodic ou não era clássica o suficiente para o House. Então ia para o Indie Dance.
O resultado foi uma categoria cada vez mais heterogênea, que foi absorvendo um tipo de som que compartilhava algumas referências estéticas com o Indie Dance (baixo escuro, sintetizadores retrô, groove com influência disco) mas que operava com uma lógica completamente diferente: construído para o pico da noite, com estruturas mais pesadas, breaks mais impactantes e um propósito essencialmente voltado à pista de dança.
O chart havia se tornado irreconhecível para quem buscava o espírito original da categoria.
O que é o Indie Tech?
A criação do Indie Tech como gênero independente é, antes de tudo, um reconhecimento de que duas coisas distintas estavam dividindo o mesmo nome.
O Indie Tech herda o vocabulário estético do Indie Dance — timbres de electro, texturas análogas, um certo DNA alternativo na construção melódica — mas é pensado para funcionar de forma diferente dentro de um set. Suas influências se estendem pelo Tech House, Melodic Techno e Bass House, com ênfase em grooves que chamam a pista, construções que acumulam energia e um impacto que o Indie Dance tradicional raramente buscava.
Enquanto o Indie Dance guarda a experimentação, a imperfeição e aquela sensação de que algo humano esteve presente na construção, o Indie Tech pega elementos dessa identidade e os reconfigura com uma estética mais programada e orientada ao clube. Nomes como Max Styler, Adam Ten, Mita Gami, Rafael e Greggio representam essa nova variante musical. Apesar de compartilharem o mesmo DNA, servem para propósitos diferentes.
DvirNuns, um dos artistas que comentou sobre a nova subvertente, explicou bem:
“De onde eu venho, o Indie Dance sempre foi experimental, cheio de novos sons e ritmos aleatórios. Nos últimos anos, vimos os principais produtores do mundo entrarem em cena para continuar construindo o gênero como ele deveria ser construído: experimentando. Hoje, o Indie Dance sozinho não é suficiente para representar essa evolução.”
Comentou.O que a novidade significa (e o que não resolve)
Para artistas que produzem dentro do espírito real do Indie Dance, a criação de um Top 100 para o Indie Tech representa uma maior oportunidade de visibilidade. Antes, esses lançamentos competiam num chart que misturava sons com pouca relação entre si. Agora, há um espaço onde a comparação faz mais sentido e onde o esforço curatorial das labels pode encontrar um público mais alinhado.
Para gravadoras como Maccabi House, Diynamic, AETERNA e outras que já operam num território mais clubber, a novidade é uma superfície mais exclusiva para trabalhar. Para DJs que garimpam música por gênero, é uma forma de pesquisa mais eficiente. Para curadores de playlists e bookers que usam o Beatport como referência de mercado, é um indicador mais preciso do que está crescendo dentro dessa sonoridade.
Raph Pujol, vice-presidente de Curadoria Global do Beatport, foi sincero:
“Nem sempre acertamos em tudo e, quando erramos, é importante ouvir, aprender e fazer o certo pelas comunidades que servimos. Criar um novo espaço permite que os dois floresçam cada um a seu modo.”
Admitiu.A honestidade é bem-vinda. Mas seria ingênuo imaginar que a criação de uma nova categoria resolve o problema estrutural do Indie Dance. A categoria sempre foi híbrida por natureza — e continuará sendo. O que o Beatport pode fazer é conter parte desse 'sequestro', dar ao Indie Dance um pouco mais de espaço para respirar dentro da sua própria linhagem e oferecer ao Indie Tech um endereço que faça mais sentido para o que ele representa.
Porém, num cenário de produção musical onde subgêneros se multiplicam com facilidade e os limites entre estilos ficam cada vez mais fluidos, classificar é sempre um exercício incompleto. O Indie Dance vai continuar absorvendo lançamentos que não cabem em outros lugares. E provavelmente o Indie Tech, com o tempo, vai enfrentar versões menores do mesmo desafio.
O que mudou é que a conversa ficou mais fiel e justa. E isso, pelo menos por ora, já é alguma coisa.
Imagem de capa: Reprodução.
Sobre o autor
Caio Pamponét
Formado em jornalismo pela UFBA e Redator/Social Media da Play BPM. Um apaixonado por música desde a infância que cultiva o sonho de viajar pelo mundo fazendo o que ama e conhecendo novas culturas. Respiro os mais diversos BPM's e faço da música o seu combustível diário.
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