Depois de anos orbitando diferentes cenas, linguagens e circuitos, Afterclapp chega a um ponto raro na trajetória de um artista: o da clareza. Não se trata de acomodação, mas de entendimento. A nova fase do projeto revela um artista que passou a olhar para a própria carreira com a mesma atenção com que sempre olhou para a música – de forma crítica, curiosa e estratégica.
Essa maturidade não surge do acaso. Ela é resultado direto de uma trajetória construída sem atalhos, marcada por experimentação constante e pela recusa em repetir fórmulas. Desde os primeiros passos no hip-hop e nos remixes de música brasileira até as passagens por festivais como Burning Man, Fusion Festival, Universo Paralello e grandes eventos no Brasil, o DJ e produtor brasileiro acumulou vivências que hoje se organizam em um discurso artístico mais coeso.
O ponto central dessa fase é o alinhamento entre o que ele produz, o que ele toca e o que ele comunica. Por muito tempo, houve um descompasso entre essas três frentes. Suas produções nem sempre refletiam o som que apresentava nas pistas, e sua imagem pública não dava conta da amplitude do projeto. Ao reconhecer esse desalinhamento, deu um passo fundamental: decidiu desacelerar, observar e reconstruir.
Nos últimos dois anos, esse processo se traduziu em estudo profundo da música eletrônica e de suas múltiplas vertentes. Tech house, house, afro house, funky house e elementos orgânicos passaram a conviver de forma mais natural com influências brasileiras, africanas, latinas e do funk americano. O resultado não é um híbrido genérico, mas um som que carrega identidade; um DNA que atravessa todas as faixas e que faz com que suas produções sejam facilmente reconhecíveis, independentemente do gênero.
A inauguração da Areiia Records talvez seja o gesto mais simbólico dessa fase estratégica. Criar uma gravadora própria não foi apenas uma decisão prática, mas conceitual. Ao assumir o controle de seus lançamentos, Afterclapp garante liberdade criativa e constrói um catálogo que dialoga com sua visão artística de longo prazo. A label nasce com a missão de lançar músicas dançantes e de pista, mas que se posicionam fora dos moldes mais previsíveis da música eletrônica contemporânea.
Essa visão se estende também ao campo das experiências. A festa autoral Wake & Bake surge como resposta direta à saturação de modelos tradicionais de clubbing. Em vez de ambientes fechados, escuros e excessivamente densos, a proposta aposta em leveza, celebração e conexão. É uma tentativa consciente de reconectar a música eletrônica à ideia de encontro – algo que sempre esteve no cerne do projeto.
Outro aspecto que reforça o caráter estratégico dessa fase é a leitura honesta que o artista faz do mercado atual. Afterclapp entende que alcance digital, plays e reconhecimento entre pares não garantem, por si só, uma carreira sustentável. Por isso, o foco agora está na construção de uma base real de público, capaz de acompanhar o projeto ao longo do tempo e se identificar com sua narrativa, não apenas com faixas isoladas.
Ao apresentar sua fase mais madura e centrada, Afterclapp deixa claro que o objetivo não é apenas ocupar espaços maiores, mas fazê-lo com consistência. Um movimento que pode não ser imediato, mas que aponta para algo mais sólido – e, sobretudo, mais verdadeiro.
Imagem de capa: Divulgação.
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