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A jornada improvável de Gorovich: de percussionista a fenômeno do psytrance

01 de Outubro de 2026
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Há nomes que aparecem na cena de formas inesperadas, e, com o tempo, passam a ser reconhecidos pela sonoridade antes mesmo de serem reconhecidos pessoalmente. Esse é o caso de Nimrod Gorovich, produtor, músico e criador do projeto Gorovich, que encontrou no Psytrance um espaço para desenvolver uma identidade que não nasceu pronta, mas que foi sendo construída ao longo dos anos.

Gorovich - Foto: Reprodução.
Gorovich - Foto: Reprodução.

Antes mesmo dos grandes palcos, das várias pistas, e dos famosos lançamentos cujo seu nome se tornaria uma das grandes referências mundiais, havia uma mente com outras ideias, outras experiências e uma relação com a música que vinha de algo muito antes do psytrance. Para entender o que viria a surgir depois, é preciso voltar a esse período, e conhecer o caminho em que Nimrod percorreu até encontrar seu próprio ambiente sonoro.

Talvez seja justamente por isso que seja tão difícil explicar Gorovich apenas através de palavras como progressive, psytrance, psicodelia ou groove. Existe algo que acontece antes da definição: uma sensação que chega primeiro ao corpo e só depois encontra um nome. Sua música parece abrir um portal sensorial para quem a escuta, permitindo que cada pessoa atravesse esse espaço carregando consigo suas próprias memórias, emoções e estados. A melancolia não permanece apenas na melodia; encontra o grave, mistura-se à percussão e percorre as texturas, transformando a música em uma experiência que vai além do som.


O próprio Nimrod descreve esse momento de transformação da música quando diz:

“Então, em determinado momento, a faixa passa a pertencer a todos; ela encontra o mundo e interage com a mente das pessoas”

Comentou.

Mas, para entender de onde nasceu essa capacidade de transformar som em atmosfera, é preciso voltar muito antes do nome que hoje conhecemos como Gorovich.

Nimrod começou sua jornada musical aos nove anos, tocando bateria e música folclórica israelense ao lado do pai e do avô. Seu primeiro contato com o ritmo aconteceu de maneira profundamente física: mãos, pele, impacto, tempo e escuta. Mais tarde, já imerso na cena indie de Israel, passou a tocar, gravar e excursionar com diferentes bandas, enquanto o interesse pela composição o conduzia também para trilhas de cinema, teatro e dança contemporânea.


O psytrance, portanto, não foi onde sua história musical começou. Foi uma nova paisagem dentro de uma trajetória que já havia lhe ensinado a ouvir de diferentes maneiras. Quando a música eletrônica passou a ocupar um espaço maior em sua vida, Nimrod não carregava apenas referências de produtores e DJs, mas também a experiência de um instrumentista, o olhar de um compositor e a sensibilidade de alguém acostumado a criar música para acompanhar imagens, movimentos e emoções. Talvez seja justamente por isso que sua relação com o gênero nunca tenha obedecido completamente às fronteiras que o delimitam.

Em 2019, ao falar sobre sua identidade como artista de psytrance, Nimrod resumiu tudo de uma maneira quase desconcertante em sua simplicidade: “I’m a musician.” Sua identidade seguia em constante transformação, e essa inquietação talvez fosse justamente o que o mantinha em movimento, livre para explorar novas possibilidades sem se prender a uma única definição.

Gorovich tocando percussão - Foto: Reprodução.
Gorovich tocando percussão - Foto: Reprodução.

O psytrance entrou em sua vida através das pessoas que estavam ao seu redor. Seus amigos já frequentavam aquela cultura, as festas faziam parte daquele círculo e, em algum momento, a curiosidade deixou de ser apenas a de quem observava uma pista para se transformar na vontade de criar algo que pudesse existir dentro dela.

A primeira experiência foi simples: uma festa, pessoas dançando, uma energia que chamou sua atenção. Nimrod percebeu a entrega daquele público e começou a produzir seu próprio psytrance. O que poderia ter sido apenas uma curiosidade encontrou direção e, pouco depois, encontrou também uma companhia que seria fundamental para sua história.

Em 2013, Nimrod encontrou Dekel Kamiosky, dando início a uma etapa decisiva de sua trajetória. A afinidade entre os dois rapidamente encontrou na produção musical um novo território de descoberta, e juntos começaram a experimentar, criar e desenvolver ideias que dariam origem ao Empirikal, projeto que se tornaria uma das expressões mais singulares daquele momento da cena.

DJ e produtor Dekel Kamiosky - Foto: Reprodução.
DJ e produtor Dekel Kamiosky - Foto: Reprodução.

Vindos de um pequeno vilarejo no norte de Israel, ambos compartilhavam uma conexão próxima com a natureza, a música, as experiências psicodélicas e a experimentação. Até o nome escolhido para o projeto carregava esse espírito, algo derivado de empirical: algo que remete ao conhecimento adquirido através da experiência, uma declaração de princípios sobre aquilo que estavam prestes a construir.

Dupla de DJs Empirikal - Foto: Reprodução.
Dupla de DJs Empirikal - Foto: Reprodução.

Eles não queriam simplesmente repetir aquilo que já existia. Nimrod trazia consigo sua formação como compositor e músico, Dekel, sua experiência como DJ e produtor. Dessa combinação nasceu uma linguagem que transitava pelo new wave, progressive e uplifting psytrance, atravessada por referências que iam de Simon Posford e LOUD a Infected Mushroom, Psysex e Mamady Keïta.

A resposta da cena não demorou a aparecer. “Dark Angel”, lançado em 2014 em uma compilação da TIP Records, tornou-se um dos primeiros grandes cartões de visita do Empirikal. No ano seguinte, “Good Q” chegaria por uma compilação da Iboga Records, enquanto o "Psy Spy EP", pela TIP Records, aprofundaria aquela identidade. Em 2016, “G-Spot”, novamente pela TIP, e “Brain Worms”, pela HOMmega, revelariam um projeto cada vez mais seguro de sua própria linguagem.

Mais do que uma passagem pela cena, o Empirikal representou para Nimrod um período de experimentação e descoberta. Era a oportunidade de colocar em prática tudo aquilo que havia acumulado ao longo de sua formação, o músico, o compositor, o instrumentista e o ouvinte inquieto e perceber até onde poderia levar essa mistura. Algumas dessas experiências ficariam para trás; outras acompanhariam Nimrod na construção de algo que, pouco depois, passaria a carregar seu próprio nome.

Foi também nesse período que Nimrod se aproximou ainda mais do LOUD, projeto formado por Eitan Reiter e Kobi Toledano e que já havia se tornado um dos nomes emblemáticos do psytrance israelense. Para Nimrod, aquela aproximação abriria uma nova dimensão em sua trajetória musical.

Projeto LOUD em apresentação ao vivo - Foto: Reprodução.
Projeto LOUD em apresentação ao vivo - Foto: Reprodução.

Ele e Dekel admiravam profundamente o trabalho de Eitan Reiter e Kobi Toledano. O encontro, inicialmente motivado pelo desejo de aprender e aprimorar a produção, acabou se transformando em quase dois anos de trabalho, troca e amizade. Nimrod também passou a tocar bateria e percussão nas apresentações do LOUD, levando para aquele universo eletrônico o instrumento que o acompanhava desde a infância.

Anos depois, quando Gorovich já havia construído sua própria identidade, ele voltaria ao universo do LOUD de uma maneira completamente diferente. Em 2021, o lançamento de "Loud Remixes Vol. 2" reuniu releituras do catálogo do projeto, e Gorovich foi responsável por sete delas, entre elas “If”, com LOUD e Shulman, além de “Tales from the Loudmobile”, “Small Talk”, “Sun Dance”, “Subinya”, “Station 42” e “Shores of Titan”. A própria Iboga apresentou o conjunto como uma passagem por territórios de dub e downtempo, revelando uma faceta de Gorovich que ia muito além dos limites mais conhecidos do psytrance.


Em 2017, porém, Nimrod já havia começado a procurar um espaço exclusivamente seu. Pela primeira vez, toda aquela experiência poderia existir dentro de uma única identidade. Não havia mais uma dupla dividindo escolhas, nem uma banda representando apenas parte de sua expressão. Havia apenas ele, suas referências e a necessidade de descobrir o que aconteceria quando tudo aquilo pudesse finalmente falar através de um único nome: GOROVICH.

Gorovich - Foto: Reprodução.
Gorovich - Foto: Reprodução.

"Dracula”, sua colaboração com Dekel, acabaria se tornando uma das pontes entre passado e presente, enquanto “Pinball” ajudaria a revelar a linguagem que começava a se consolidar em seu projeto solo. Entre referências já conhecidas e novos caminhos ainda em descoberta, as duas faixas marcavam momentos diferentes de uma mesma transformação: a passagem de Nimrod para Gorovich.

Havia, porém, algo que ele não queria fazer: repetir.

Nimrod olhava para o trance experimental dos anos 1990 e encontrava ali uma liberdade que o fascinava. X-Dream, Synchro, Hallucinogen, Midimiliz e Organic Noise estavam entre as referências que alimentavam sua imaginação, não necessariamente porque quisesse reproduzi-las, mas porque admirava a disposição daqueles artistas de buscar uma identidade própria.

Essa mentalidade se tornou parte do processo de "Vortex". Durante a produção de “Digital Pussy”, Nimrod queria que cada som existisse por uma razão. Kick, bateria, lead, efeitos e texturas deveriam nascer daquela música, e não simplesmente ser retirados de uma biblioteca. Foi nesse processo que percebeu algo que mudaria sua maneira de produzir.

“Ouvi algo ali que nunca havia escutado antes na minha música. Era algo diferente, algo mágico”

Declarou.

"Vortex" reuniria esse pensamento em sete faixas, entre elas “Venus”, “Lucid Dream”, “Area 101”, “Vortex”, “Pinball”, “Digital Pussy” e “California Resonance”. É justamente nessa fase que sua assinatura começa a se tornar mais reconhecível: o grave cria uma fundação, as percussões movimentam o espaço e as texturas surgem em camadas, revelando aos poucos uma sonoridade que nunca entrega tudo de uma vez.

Você pode estar ouvindo sozinho, em um fone de ouvido, durante uma caminhada ou no meio de milhares de pessoas em um festival. Em qualquer situação, a música encontra um ponto entre mente e corpo. O grave conduz sem atropelar. A melodia emociona sem exigir resposta. A percussão mantém tudo em movimento, enquanto as atmosferas deixam espaço para que cada pessoa construa sua própria interpretação.

É um equilíbrio difícil.

Talvez seja esse equilíbrio que faça tanta gente se reconhecer, se inspirar ou até mesmo se enxergar nas músicas de Gorovich.

Dentro das comunidades de psytrance, seu nome frequentemente aparece próximo ao de artistas como Dekel, Captain Hook, Out Of Orbit, Modus e Freedom Fighters quando o público busca uma experiência mais progressiva, profunda, orgânica e hipnótica. Não significa que todos façam a mesma música. Significa que existe uma região emocional e sonora em comum um território onde diferentes artistas encontram caminhos distintos para chegar a uma mesma sensação de imersão.

O impacto de um artista nem sempre pode ser medido pela quantidade de pessoas que sabem seu nome. Às vezes, ele está na maneira como seu trabalho se transforma em referência para outra pesso. Naquele momento em que alguém pergunta “quem mais faz algo assim?” e seu nome aparece, na faixa descoberta anos depois, ainda capaz de provocar a mesma sensação. É nesse lugar, entre a influência e a memória, que um artista deixa de ser apenas ouvido e passa a fazer parte da história de quem o escuta.

Sua música encontrou algumas das pistas mais importantes e conhecidas da cultura psicodélica internacional, passando por festivais como Boom, Adhana, Wild Horse e Baobá Festival, entre tantos outros. Mas existe um lugar que ocupa um espaço especialmente bonito nessa trajetória: o Ozora Festival, na Hungria.

Ozora Festival, na Hungria - Foto: Reprodução.
Ozora Festival, na Hungria - Foto: Reprodução.

Anos antes de chegar ali como Gorovich, Nimrod já havia pisado naquele universo tocando bateria e percussão com o LOUD. Depois, retornaria carregando uma identidade construída por ele próprio. Em 2022, já como Gorovich, sua apresentação no festival se transformou em um daqueles momentos em que artista e pista parecem devolver algo um ao outro. O próprio Nimrod associaria aquela experiência a uma fonte profunda de inspiração para sua música.

A história continuaria em 2025, quando ele voltaria ao Ozora para outra apresentação. E existe algo significativo na maneira como Nimrod encara esses sets: prefere não determinar antecipadamente toda a sequência, permitindo que o momento, a atmosfera e a reação da pista conduzam suas escolhas.

Essa mesma capacidade de transformar referências reapareceria em seus remixes. “Conga Fury”, do Juno Reactor, ganhou pelas mãos de Gorovich uma leitura mais intensa e hipnótica, tornando-se presença marcante em seus sets. Mas foi “Liquid Hook”, de Captain Hook e Liquid Soul, que alcançou uma dimensão especialmente poderos. Aguardado pelos fãs, o remix chegou às pistas como uma verdadeira descarga de energia, daqueles sons capazes de fazer o grave tomar conta do corpo e transformar o dancefloor em um único movimento.


No set do Boom Festival de 2023, as duas apareceriam ao lado de “California Resonance, Pt. 2”, “Vortex” e “Pinball”. Juntas, revelavam a amplitude que a linguagem de Gorovich havia alcançado capaz de transitar entre profundidade, psicodelia e impacto sem perder a identidade que tornava cada faixa imediatamente reconhecível.

Essa busca continuaria em "Creative Acts", lançado pela Iboga Records em 2025. Nascido de um período de exploração, curiosidade e intuição, o álbum revela um Nimrod disposto a suspender julgamentos, abandonar certezas e abrir espaço para o inesperado. O próprio artista definiu esse processo através de palavras como nascimento, renovação, imersão, entrega, guerra, luto e amor: diferentes estados de uma mesma jornada criativa.

Faixas como “Datura”, “Shaman-Guru”, “Inside” e “Kulthum” surgem nessa fase como diferentes portas para um mesmo universo, aprofundando uma psicodelia mais contemplativa e atmosférica, onde a pista deixa de ser apenas destino e se transforma em caminho. “Shaman-Guru”, colaboração com Shaman Shaman, acrescenta uma dimensão quase ritualística a esse percurso, enquanto “Inside” mergulha em uma experiência mais íntima e introspectiva.

Gorovich com o álbum Creative Acts (2025) - Foto: Reprodução.
Gorovich com o álbum Creative Acts (2025) - Foto: Reprodução.

E, enquanto muitos artistas procuram aperfeiçoar aquilo que já funciona, Nimrod continua buscando aquilo que ainda não conhece. Depois de anos trabalhando com Eitan Reiter em estúdio e no palco, os dois deram origem ao Abstrakt, projeto que atravessa techno, trance e electro a partir da interação humana, utilizando drum machines, samplers e sintetizadores em um live pensado para nunca soar exatamente igual duas vezes.

Há algo de simbólico nessa escolha. Um menino que começou diante de uma bateria, décadas depois, continua interessado justamente naquilo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir por completo: o toque, a improvisação, o erro, a reação humana e a presença.

Talvez "Vortex" nunca tenha sido apenas o nome de um álbum, mas a melhor metáfora para sua própria trajetória: um movimento contínuo para dentro, do som à experiência, da experiência ao próprio Nimrod. Depois de tantos anos, palcos, projetos, colaborações e descobertas, ele continua procurando aquilo que ainda não encontrou. E talvez seja justamente essa busca que mantenha sua música viva.

Hoje, Gorovich já não precisa ser apresentado apenas como alguém que encontrou uma maneira diferente de fazer psytrance. Seu nome se consolidou como uma referência do progressive psytrance e de sua vertente mais experimental, conectando a herança psicodélica de diferentes gerações a uma linguagem profundamente própria. Entre natureza, percussão, melancolia, groove e atmosferas que parecem abrir dimensões dentro de quem escuta, Nimrod construiu algo que poucos artistas conseguem alcançar, uma assinatura reconhecível antes mesmo que seu nome apareça.

Gorovich em apresentação ao vivo - Foto: Reprodução.
Gorovich em apresentação ao vivo - Foto: Reprodução.

É nesse território entre o corpo, a mente e o desconhecido que Nimrod Gorovich encontrou seu lugar. Da bateria na infância às grandes pistas do mundo, seu caminho ajudou a construir uma nova maneira de sentir o progressive psytrance, fazendo de seu nome uma das referências mais emblemáticas de uma geração que encontrou em sua música não apenas um som, mas uma experiência.

E talvez esse seja o verdadeiro vórtice de Gorovich: não aquele que nos prende, mas aquele que nos conduz para dentro de nós mesmos.


Imagem de capa: Reprodução.

Modus e o 'Square Bass': a assinatura sonora que transformou o psytrance moderno
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Sobre o autor

Daniel Souza

Daniel Souza

Sentir, cantar, vibrar e se emocionar, são os pilares principais da música, apaixonado pela arte da melodia, sigo vivenciando as vertentes da vida nos melhores lugares, como eu sempre digo: “Você sente na pele... e a batida no coração”

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