Modus e o 'Square Bass': a assinatura sonora que transformou o psytrance moderno
Poucos artistas conseguem ser reconhecidos antes mesmo que seu nome apareça na tela do CDJ. No Progressive Psy moderno, esse é um privilégio reservado a poucos. Entre eles está Asaf Tsemach, produtor israelense que o mundo aprendeu a conhecer como Modus.
Sua história não começa em um grande festival, nem em um estúdio cercado por equipamentos de última geração. Ela começa com uma experiência que mudaria sua vida para sempre.
Em 2011, durante uma viagem à América do Sul, Asaf chegou ao Brasil para viver o Universo Paralello sem imaginar que aqueles dias redefiniriam completamente seu futuro. Até então, conhecia pequenas festas em Israel, mas nunca havia experimentado a dimensão humana, musical e espiritual de um festival daquele porte. Em entrevistas, ele explica que não foi um DJ específico que despertou sua paixão, foi a soma de tudo: a música, a energia, as pessoas e a atmosfera. Ao voltar para casa após sua experiência, o artista já havia decidido que dedicaria sua vida ao Psytrance.
Dois anos depois, em 2013, nasceu o projeto Modus, mas o público ainda não sabia de sua existência.
Enquanto muitos artistas correm para lançar suas primeiras músicas, Asaf fez o caminho oposto. Durante anos, preferiu permanecer em silêncio, estudando produção musical, explorando referências e buscando aquilo que se tornaria sua maior marca: uma linguagem própria.
Foi nesse período que aconteceu o episódio mais importante de sua carreira.
Ao ouvir uma de suas produções, Eyal Yankovich, fundador da HOMmega Records fez um comentário que parecia simples, mas carregava um peso enorme:
“Isso soa como algo que eu já ouvi antes. Você precisa encontrar sua própria assinatura sonora”
Disse Eyal.Aquele breve conselho, mudaria completamente sua trajetória dali em diante.
Asaf percebeu que estava apenas reproduzindo aquilo que admirava. A partir daquele momento, deixou de tentar criar músicas parecidas com as de outros produtores para descobrir um som que ninguém mais pudesse reproduzir.
Foi ali, após aquela breve conversa, que nasceu o verdadeiro Modus.
Em 2017, a resposta veio com "Organic Panic", lançado pela lendária HOMmega Records. A faixa rapidamente deixou de ser apenas mais um lançamento e passou a representar um daqueles raros momentos que fazem DJs interromperem suas pesquisas para descobrir quem está por trás daquele som. O jornalista Dave Mac, da IDM Mag, descreveu a música como uma verdadeira “arma secreta” em seus sets, até que ela se espalhou pelas pistas e deixou de ser um segredo para conquistar DJs, produtores e festivais ao redor do mundo.
A ascensão foi tão rápida quanto consistente.
Em poucos anos, Modus deixou de ser uma promessa israelense para ocupar line-ups de alguns dos festivais mais respeitados da cultura psicodélica, incluindo Universo Paralello, Ozora, Indian Spirit, Freedom Festival e Esoteric Festival, consolidando uma trajetória rara para um projeto tão jovem.
Mas sua maior conquista nunca foi apenas ocupar os maiores palcos, foi desenvolver uma linguagem própria.
Enquanto grande parte do Progressive Psy seguia estruturas já conhecidas, Modus escolheu outro caminho. Inspirado por referências clássicas dos anos 1990, como Infected Mushroom, Union Jack e Art Of Trance, passou a explorar uma construção sonora baseada em espaço, profundidade e narrativa. Dessa pesquisa nasceu sua aproximação com a estética do 'Square Bass', permitindo que cada elemento respirasse dentro da música e transformando cada composição em uma verdadeira experiência sensorial.
Talvez seja exatamente por isso que tantos fãs descrevam seus sets como uma experiência de imersão.
As músicas de Modus raramente dependem de explosões repentinas para impressionar. Elas constroem tensão lentamente, revelam detalhes escondidos a cada minuto e fazem a pista mergulhar em uma jornada onde o groove conduz tanto o corpo quanto a mente.
O próprio artista resume essa experiência ao dividir as reações da pista em dois conceitos: Foot Reaction, quando a música domina o movimento do corpo, e Mind Reaction, quando ela transforma a maneira como as pessoas vivem aquele momento. Para ele, o remix de "311" representa perfeitamente a primeira categoria, especialmente pelo enorme impacto que alcançou no Brasil. Já Pac-Man Theory simboliza a segunda, conduzindo a pista para aquilo que descreve como “outra frequência”.
É por isso que, quando o nome Modus aparece em um line-up, a expectativa é diferente. Não se trata apenas de esperar por um grande set, mas por uma experiência capaz de ultrapassar a música. Quando seu som ecoa pelos corpos presentes na pista, o transe parece acontecer de forma quase imediata. Alguns sentem seus pés encontrarem o chão como tambores de um antigo ritual.
Outros descrevem a leveza do corpo como o vento que atravessa silenciosamente uma floresta. Entre atmosferas profundas, grooves hipnóticos e frequências cuidadosamente desenhadas, sua música transforma completamente o ambiente, moldando uma paisagem sonora onde cada detalhe parece ocupar exatamente o lugar que deveria.
Não é apenas um DJ conduzindo um set, é um artista conduzindo uma experiência.
Como um verdadeiro arquiteto da música psicodélica, Modus constrói paisagens sonoras que encantam, hipnotizam e conectam milhares de pessoas através de uma mesma frequência. Para muitos fãs, suas apresentações representam uma jornada quase espiritual, onde emoção, natureza e consciência caminham lado a lado. É justamente essa capacidade de transformar música em sentimento que fez de Modus uma das referências mais poderosas do Progressive Psy moderno e um dos nomes que ajudaram a consolidar a nova geração do Square Bass.
Em 2021, chegou o trabalho que consolidaria definitivamente sua visão artística, "The Future Is Behind Us".
Mais do que um álbum, foi a materialização de sua filosofia artística.
Seu título traduz a essência que guia sua música: o futuro é construído pelas referências do passado. Inspirado pelos artistas que moldaram a história do Trance, Modus escolheu olhar para trás para criar algo que apontasse para frente. O resultado foi um disco pensado para ser ouvido como uma única viagem, unindo profundidade emocional, narrativa sonora e identidade musical em uma obra completa.
Cinco anos depois, essa filosofia encontraria um novo capítulo em "INTENTION". Longe de representar uma ruptura, o EP lançado dia 3 de Julho de 2026 evidencia o amadurecimento de um artista que já não precisa buscar uma identidade, apenas aprofundá-la. As duas faixas revelam diferentes perspectivas de uma mesma essência, confirmando uma assinatura sonora construída ao longo de mais de uma década. Há uma naturalidade que só o tempo é capaz de oferecer, cada atmosfera, cada silêncio e cada groove parecem surgir com absoluta confiança, como se a música falasse por si antes mesmo que o nome Modus apareça.
"Intention" demonstra a maturidade de quem compreendeu que evoluir não significa abandonar a própria essência, mas refiná-la. É um trabalho que olha para o futuro sem romper com aquilo que tornou Modus imediatamente reconhecível.
Hoje, dentro da Stereo Society, Modus representa muito mais do que um integrante do catálogo. Ele simboliza uma geração que provou que originalidade ainda pode existir em uma cena onde quase tudo parece já ter sido criado.
Em pouco mais de uma década desde o nascimento do projeto, Asaf Tsemach deixou de ser apenas um jovem produtor israelense para se tornar uma das assinaturas sonoras mais respeitadas do Progressive Psy moderno.
Uma identidade que não depende de grandes explosões, mas de pequenos detalhes, de tensão, de respiro, de narrativa. De atmosferas que se revelam pouco a pouco, como se cada faixa convidasse a pista a viver uma jornada que transcende, e não apenas ouvi-la.
Talvez isso seja o motivo de tantos reconhecer seu som antes mesmo de reconhecer seu nome.
Asaf, conquistou dentro do Progressive Psy moderno um lar, tornando-se não apenas uma das assinaturas sonoras mais respeitadas de sua geração, mas também um dos nomes que já escrevem, em vida, um capítulo importante da história do gênero.
Imagem de capa: Divulgação.
Sobre o autor
Daniel Souza
Sentir, cantar, vibrar e se emocionar, são os pilares principais da música, apaixonado pela arte da melodia, sigo vivenciando as vertentes da vida nos melhores lugares, como eu sempre digo: “Você sente na pele... e a batida no coração”
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