“Bem, antes da música eletrônica, o mundo era um lugar entediante. Por milhares e milhões de anos, a humanidade tem procurado pela música eletrônica. Nos últimos 50 anos, ela apareceu. E agora, nossas vidas nunca mais serão as mesmas, porque a música eletrônica nos leva ao lugar para onde queremos ir.”
Esse monólogo dito por um simpático senhor marcou a história da música para além do gênero do Psy Trance, do qual ele faz parte. Hoje, vamos contar a história de Raja Ram, um eterno jovem de 85 anos que deixou sua marca registrada na música eletrônica.
Assim como a música eletrônica iniciava seus primeiros passos em meio à Segunda Guerra Mundial, nasce Ronald Gary Rothfield, especificamente em 18 de dezembro de 1940, ano em que o mercado mundial de música era dominado pelo Jazz e seu subgênero, Swing - elementos que serão fundamentais da trajetória do artista futuramente.
Ronald já demonstrava talento desde cedo com aquele que seria seu primeiro amor: a flauta, conquistando a partir do instrumento uma vaga no Conservatório de Música de Melbourne, em sua cidade natal na Austrália. Com o tempo, aprendeu os fundamentos e a estrutura da música clássica que despertou sua curiosidade e criatividade, levando Ronald a experimentar novas formas de fazer música, com destaque para o Jazz, que lhe possibilitou experienciar a liberdade sonora característica do gênero.
O fim pode ser um recomeço
Ronald mudou-se para a Inglaterra, onde teve seus primeiros holofotes da fama ao fundar a Quintessence, uma banda de Rock Psicodélico que misturava Jazz e influências indianas. O sucesso não demorou a chegar, e a banda fez história entre os britânicos, marcando presença em palcos de relevância, como o de Glastonbury. Mas, curiosamente, no início dos anos 70, o artista decidiu anunciar sua aposentadoria, colocando um ponto final em sua carreira artística.
Sua pausa, embora inusitada, talvez tenha sido exatamente aquilo que era necessário para o nascimento daquele que viria a ser Raja Ram. Nesse período pós-sucesso, Ronald passou a trabalhar como vendedor de envelopes, levando uma vida mais sossegada.
Após duas décadas de calmaria, durante uma viagem à índia com destino a Goa - conhecido como um dos locais mais importantes para o desenvolvimento da música eletrônica - Ronald se deparava com algo novo: os sintetizadores em meio aos ritmos psicodélicos. Ele tinha diante de seus olhos e ouvidos o surgimento de algo que viria a expandir seu horizonte criativo. E assim, em 1989, junto de Graeme Wood, ele formou o The Infinity Project, o início de sua jornada naquele novo universo sonoro.
Um desbravador da psicodelia
Mais do que apenas um artista, Ronald virou um ponto de referência que norteava uma cena em ascensão, sendo toda sua bagagem musical fundamental para o desenvolvimento da estrutura do que se tornaria o Goa Trance.
Nesse caminho surge a TIP Records, fundada na Inglaterra em 1993 pelo The Infinity Project junto de Ian St. Paul. O selo tornou-se uma referência de qualidade, levando aquela sonoridade em formação para diferentes partes do mundo.
Aqui fica uma curiosidade: o nome Raja Ram vem da Índia, e suas traduções podem ter conotações ligadas à ideia de um "Rei Virtuoso" ou "Príncipe Divino". Ainda que, à época, não se soubesse o impacto que Ronald exerceria sobre o universo psicodélico, o artista consolidou-se como um dos desbravadores da cena psytrance, abrindo caminho para diversos outros nomes que viriam a seguir seus passos.
No período em que o Progressive House dominava a região britânica, Raja Ram sacudiu a cultura clubber local com uma proposta genuinamente underground: em 1996 enquanto construía essa história de sucesso com a TIP, criava mais um novo projeto ao lado do artista Hallucinogen (Simon Posford). O projeto chamado Shpongle fundiu a riqueza dos sons orgânicos ao brilhantismo dos sintetizadores em uma sonoridade Psy Ambient, mostrando novos caminhos para a evolução do Trance.
Já em Ibiza, antes de entrar nos anos 2000, nasce o maior supergrupo de Psy Trance que já existiu: 1200 Micrograms, formado pelo lendário duo GMS (Riktam & Bansi), além de Chicago (David Christman) e Raja Ram. Essa iniciativa, em especial, teve sua primeira ideia no brasil durante uma experiência psicodélica, deitado em uma rede.
85 Anos de amor à música
Sua história e carreira trouxeram a experiência necessária para impactar o universo psicodélico. Estudos aprofundados sobre a música e a mente humana fizeram desse curioso australiano um explorador incansável de novas formas de construir e expandir seu tão amado gênero.
Engana-se quem pensa que sua idade é um limitador. Com uma presença de palco inigualável, aos 85 anos, o artista transmite uma energia contagiante, elevando o espetáculo de suas apresentações. Seu legado inclui ainda as coletâneas The Mystery of the Yeti, Stash Bag e Pipedreams, além dos projetos The Zap! e Cyberbabas. Raja Ram é um multiartista que ajudou a moldar algumas das maiores evoluções da música psicodélica, sempre com muita experiência, ciência, entusiasmo e paixão.
@raveiro.oficial Essa linda mensagem do Raja Ram 🥲🥰 vídeo: @ravesnobrasil #rajaram #mensagem #mensagemdereflexão #paz #goa #hippie #trance ♬ som original - Raveiro
Neste sábado, dia 13 de junho, Raja Ram retorna ao Brasil para uma apresentação única no Laroc Club, na quarta edição da festa Spektrum. Os ingressos para prestigiar essa lenda viva da música eletrônica e ainda assistir o jogo de estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo 2026 está disponível neste link.
Imagem de capa: Reprodução.
Sobre o autor
Pablo Brandine
Se emocionar, dançar e cantar até ficar rouco. Seu amor por música caminha por todos os gêneros da eletrônica.
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