Mercado: Diogo O’Band comenta sobre artistas que provaram que construir sua marca foi mais importante que esperar pelo acaso
~ Por Nazen Carneiro
No cenário atual da música eletrônica, marcado por lançamentos constantes e alta competição por atenção, a construção de identidade tornou-se um dos fatores centrais para o desenvolvimento de carreira.
Para o estrategista fonográfico Diogo O’Band, artistas que conseguem transformar sua estética, som e narrativa em uma marca reconhecível passam a operar com vantagem dentro da indústria. Ao analisar trajetórias recentes da nova geração brasileira, O’Band aponta dois exemplos que demonstram essa dinâmica de forma clara: Bruna Strait e a dupla Fezzo. Segundo ele, ambos mostram como consistência artística pode gerar reconhecimento do público e abrir portas para gravadoras, festivais e novas oportunidades.
Fundador e CEO da NOMMAD Media, Diogo O'Band atua como estrategista fonográfico e Cool Hunter com foco em mercado, negócios e construção de valor de longo prazo na música eletrônica. Com estratégias responsáveis por mais de 500 milhões de streams, seu trabalho conecta posicionamento artístico, branding e planejamento estrutural, tendo gerado estratégia para diversos artistas.
Na visão do especialista, construir marca na música eletrônica significa desenvolver elementos que tornam o artista imediatamente identificável. Essa identidade pode aparecer na assinatura sonora, na estética visual, no comportamento ou na narrativa do projeto. O elemento fundamental é a consistência ao longo do tempo.
Para O’Band, muitos artistas ainda acreditam que um lançamento viral pode resolver toda a carreira. Ele compara esses momentos de grande visibilidade a um holofote. Quando a atenção da indústria se volta para um artista, o que realmente determina o resultado é o que já foi construído antes em termos de identidade e posicionamento. No projeto, personalidade, interação entre os integrantes e escolhas estéticas foram gradualmente evidenciadas em conteúdos, fotos e posicionamento musical. O processo também envolve acompanhamento da reação do público, permitindo ajustes ao longo do desenvolvimento da carreira.
Para Diogo O’Band, a construção de marca é o que permite que um artista deixe de depender apenas de momentos de exposição ou tendências passageiras. Quando identidade sonora, estética e narrativa estão alinhadas, o projeto passa a gerar reconhecimento consistente dentro da indústria. Nesse contexto, trajetórias como as de Bruna Strait e Fezzo indicam como artistas da nova geração brasileira têm adotado uma abordagem mais estratégica para desenvolver suas carreiras e consolidar presença no mercado, como percebemos na entrevista realizada por Nazen Carneiro com Diogo O’Band que você confere com exclusividade aqui na PLAY BPM.
Como você define construção de marca dentro da música eletrônica atualmente?
Construção de marca, na música eletrônica hoje, é a criação de um conjunto de elementos que tornam um artista imediatamente identificável e reconhecível pelo público. Pode ser assinatura sonora, estética visual, comportamento, narrativa.... O ponto central é que esses elementos sejam consistentes, recorrentes e coerentes entre si.
Uma marca forte não é apenas diferente, ela é previsível no melhor sentido da palavra. O público sabe o que esperar. Quando o artista lança algo novo, a reação é: “É claro que ele faria isso.” Em uma mistura de surpresa e familiaridade. Existe uma identidade sólida por trás de cada movimento. Essa constância gera identificação. O fã não se conecta apenas com a música, mas com o universo que ela representa e pertence. E é essa repetição estratégica, sonora, visual e comportamental, que transforma um DJ ou produtor em uma marca, não apenas em alguém que lança faixas.
Qual é o erro mais comum de artistas que ainda esperam que uma faixa viral resolva a carreira?
O erro mais comum é falhar em perceber o ciclo de vida de uma carreira. Uma faixa viral é apenas um ponto de exposição, não é a carreira inteira. Eu gosto de comparar hits, grandes palcos ou momentos de muita repercussão a um holofote. É um instante em que a luz se volta para você. Os olhos da indústria e do público se direcionam para aquela carreira. Mas o que realmente importa é: o que existe ali que a luz vai evidenciar?
Se o artista não tem identidade clara, narrativa construída e estrutura sólida, o holofote pode até prejudicar. As pessoas olham, se interessam por alguns segundos e vão embora, porque não encontram motivos para permanecer. Por outro lado, quando a marca já está construída o momento de exposição se transforma em multiplicador. O holofote não cria a carreira; ele revela o que já estava pronto.
Quais elementos concretos de branding você identifica em Bruna Strait?
No caso da Bruna, os elementos de branding são muito claros e consistentes entre si. O primeiro é a entrega de palco. Ela tem uma performance extremamente energética e intensa. Não é algo que varia de show para show — é uma característica central da identidade dela. Quem assiste sabe que vai encontrar presença, energia alta e conexão direta com o público.
O segundo ponto é a estética. A Bruna é fortemente ligada à moda. Ela investe em looks autorais, muitas vezes personalizados, e constrói uma imagem fashionista que ousa e chama atenção. Não é figurino aleatório — é extensão da identidade artística. Existe também um traço comportamental marcante. Ela explora elementos visuais próprios, como o cabelo, de forma recorrente e consciente. Pequenos detalhes que, repetidos ao longo do tempo, ajudam a fixar a imagem no imaginário do público. Somando isso à assinatura musical e ao carisma natural que ela tem, o resultado é uma artista extremamente reconhecível. Quando você vê ou ouve, sabe que é ela. E isso é branding funcionando.
E em Fezzo, quais decisões foram determinantes para consolidar sua identidade?
No caso do Fezzo — e isso vale para praticamente todo artista — as decisões de branding não partem de uma invenção artificial. Elas partem da essência real do artista. Eu gosto de usar a analogia da caricatura. Quando um caricaturista desenha alguém, ele observa todos os traços daquela pessoa e escolhe evidenciar os mais marcantes, exagerando-os levemente para que se tornem o ponto focal do desenho. O branding funciona de forma muito parecida.
Com o Fezzo, o processo foi esse: observar profundamente quem eles já eram — personalidade, dinâmica como dupla, comportamento, energia, estética — e identificar quais características naturais tinham maior potencial de gerar conexão com o público. A partir daí, começamos a iluminar esses traços de forma estratégica em conteúdos, fotos, posicionamento, entrevistas e escolhas musicais.
Não se trata de criar algo falso, mas de amplificar o que já é verdadeiro. E existe ainda um ponto fundamental: mensuração. Branding não é apenas intuição; é análise. Acompanhamos como o público reage, quais elementos geram mais identificação e ajustamos o foco conforme necessário. No fim, a consolidação da identidade do Fezzo veio dessa combinação: essência real + evidência estratégica + leitura constante do público.
Que diferenças estratégicas você percebe na trajetória dos dois?
Os dois projetos são completamente diferentes — e essa é justamente a riqueza do processo. A Bruna Strait construiu uma trajetória muito ancorada em presença, performance e imagem forte. Existe uma intensidade muito clara na entrega dela, tanto musical quanto visual. A estratégia gira muito em torno de amplificar essa força performática e essa identidade fashionista que já são naturais nela.
Já o Fezzo segue uma dinâmica diferente. Por ser uma dupla, existe uma construção mais relacional, mais ligada à interação entre eles e à forma como essa química é percebida pelo público. A estratégia ali passa muito por evidenciar essa dinâmica, explorar personalidade e criar identificação a partir da essência da dupla. O ponto em comum é que nenhum dos dois tentou seguir um modelo genérico. Cada trajetória foi desenhada respeitando as características naturais do projeto. A estratégia não foi padronizada — ela foi personalizada.
Em que momento um artista deixa de depender do acaso e passa a operar com estratégia?
O ideal é que isso aconteça desde o momento em que o artista decide transformar sua arte em profissão. A partir do instante em que deixa de ser apenas hobby, precisa deixar de ser improviso. Mas, na prática, o que geralmente acontece é diferente. Muitos artistas começam por curiosidade ou paixão. Só quando algo dá minimamente certo — um lançamento que performa melhor, um convite inesperado, um crescimento repentino — é que percebem: “Existe uma oportunidade real aqui.”
É nesse momento que o jogo muda. Quando o artista entende que aquilo pode se tornar carreira, ele precisa abandonar a lógica do acaso e adotar a lógica da estratégia. Profissionalismo significa planejamento, posicionamento, leitura de mercado e tomada de decisão consciente.
Qual o papel da consistência sonora na construção de autoridade?
Eu prefiro trocar a palavra autoridade por identidade. Quando falamos de consistência sonora, estamos falando de assinatura. A assinatura sonora é o que transforma um artista em algo reconhecível antes mesmo de qualquer informação externa. É quando você aperta o play e, nos primeiros segundos, já sabe de quem é aquela música. Um exemplo clássico é Avicii. Em poucos segundos de introdução, sem precisar olhar título ou crédito, você reconhecia a identidade dele. Isso não é acaso. É construção consciente de linguagem musical ao longo do tempo.
Como o branding influencia o interesse de gravadoras?
Gravadoras são empresas. E empresas precisam lucrar. Esse é o ponto de partida. Quando um artista já possui um branding forte, ele se torna mais previsível do ponto de vista comercial. A gravadora consegue enxergar público, narrativa, posicionamento e potencial de retorno. Existe validação prévia. Já há pessoas que acompanham, consomem e se identificam com aquele projeto. Isso reduz risco.
No momento em que uma gravadora decide investir tempo, energia e reputação em um lançamento, ela naturalmente tende a priorizar artistas que já demonstram tração — seja em engajamento, identidade clara ou relacionamento com o público. O branding não substitui a música. Mas ele transforma o artista em um ativo comercial mais estruturado. Um projeto com marca forte não depende apenas de uma faixa boa — ele carrega contexto, comunidade e percepção de valor. E, no fim, isso torna a decisão da gravadora muito mais racional.
Festivais e bookers analisam marca antes de analisar números? Explique.
Eu não vejo como uma análise isolada de marca ou números. Na prática, festivais e bookers analisam o conjunto. Números importam porque validam demanda. Eles mostram que existe público, consumo e interesse real. Mas números sozinhos não garantem encaixe. Um artista pode ter ótimos dados e ainda assim não fazer sentido dentro do posicionamento de um festival ou da identidade de uma agência.
Por outro lado, também não adianta ter uma marca bem construída se ela não gera adesão do público. Branding sem validação é apenas conceito. O que realmente pesa é o alinhamento. Festivais e agências buscam artistas cuja marca dialogue com a própria marca do evento ou do casting. Existe uma curadoria implícita ali. Se o universo simbólico, sonoro e comportamental do artista não combina com o do festival, não existe match — independentemente dos números. No fim, não é marca versus métricas. É coerência estratégica entre identidade, validação e contexto.
Hoje, o que pesa mais para o mercado: storytelling, estética ou performance musical?
Para mim, a performance musical é o ponto de partida. Se o artista não entrega musicalmente — seja na produção, seja no palco — ele nem entra no jogo. A base precisa ser sólida. Sem isso, não existe sustentação. A estética vem logo depois. Quando a música é boa e o público encontra um perfil visualmente bem construído, com fotos, identidade e coerência estética, isso transmite profissionalismo. A imagem valida a entrega. Mas o que realmente diferencia no longo prazo é o storytelling. É a narrativa que cria vínculo. É ali que o fã deixa de apenas ouvir música e começa a se relacionar com o artista. E, hoje, relacionamento é o ativo mais valioso. A música atrai. A estética consolida. O storytelling fideliza. E fidelização é onde mora o verdadeiro valor de mercado.
Como a construção de comunidade impacta a longevidade da carreira?
Um artista sem fãs é como uma empresa sem clientes. Pode ter produto, pode ter estrutura — mas não tem sustentação. No cenário atual, a legião de fãs é o ativo mais valioso de uma carreira. Houve uma inversão clara de lógica na indústria. Antigamente, o artista fazia shows para conquistar fãs. Hoje, é quem já tem fãs que consegue os shows. A demanda precede a contratação.
A construção de comunidade garante longevidade porque reduz dependência de intermediários. Quando existe base fiel, o artista não depende apenas de algoritmos, gravadoras ou festivais. Ele possui público próprio, recorrente, que acompanha lançamentos, compra ingressos e sustenta a narrativa. No longo prazo, não é o hit que mantém uma carreira. É a comunidade que decide se ela continua existindo.
Quais indicadores mostram que um artista está consolidando marca e não apenas acumulando plays?
Plays, sozinhos, não são indicador de marca forte. Eles podem representar alcance momentâneo, mas não necessariamente consolidação. Os sinais reais aparecem quando o artista começa a ocupar os espaços certos. Se ele passa a ser incluído em lineups ao lado de artistas que fazem sentido esteticamente para sua proposta, isso é um indicador claro de posicionamento consolidado. Se começa a lançar por gravadoras alinhadas ao seu universo sonoro — aquelas que ele sempre quis integrar — isso mostra coerência de trajetória.
Outro sinal muito forte é o público. Quando você olha para a pista e reconhece ali exatamente o tipo de audiência que gostaria de ter — pessoas conectadas com sua estética, seu estilo e sua energia — isso demonstra que a marca está atraindo o público certo, não apenas volume. Marca consolidada não é sobre números altos.
É sobre coerência entre identidade, oportunidades e audiência. Quando o ecossistema começa a refletir quem você é, a marca está funcionando.
O mercado brasileiro já entende a importância do branding ou ainda está em amadurecimento?
O mercado brasileiro evoluiu muito nesse sentido. Hoje, é visível que muitos artistas já compreenderam o valor da construção de marca. Um dos sinais mais claros disso é o aumento de colaborações entre artistas de música eletrônica e empresas — campanhas, publis e parcerias comerciais passaram a ser cada vez mais comuns.
Esse movimento só acontece quando existe percepção de valor de marca. Empresas não se associam apenas a números; elas se associam a identidade, posicionamento e influência cultural. Dito isso, ainda há espaço para amadurecimento — como em qualquer mercado. A profissionalização é um processo contínuo. Mas é inegável que a cena brasileira está mais consciente, mais estratégica e mais preparada do que há alguns anos. E isso é fundamental se quisermos consolidar o Brasil como uma das maiores forças da música eletrônica no mundo.
Se você tivesse que estruturar três pilares fundamentais para um artista construir marca hoje, quais seriam?
O primeiro pilar é autoconhecimento. O artista precisa ter sensibilidade para entender quais traços reais da sua personalidade, estética e musicalidade ele quer evidenciar. Marca não começa na estratégia — começa na essência. É sobre decidir conscientemente o que será amplificado. O segundo pilar é consistência. Depois de definir esses elementos, é preciso repeti-los de forma coerente — na assinatura sonora, na estética visual, no comportamento e na comunicação. É a repetição estratégica que fixa identidade no cérebro do público. Marca é reconhecimento.
O terceiro pilar é leitura de resposta. Construção de marca não é ego, é ajuste fino. É preciso observar se o público está se identificando, se existe conexão real. Quando funciona, fortalece-se. Quando não funciona, recalibra-se. Estratégia exige adaptação. Autenticidade define. Consistência fixa. Sensibilidade ajusta. Esses três pilares sustentam qualquer marca que queira durar.
Branding forte reduz a dependência de tendências? Por quê?
Reduz, porque branding é o que resiste ao tempo. Tendência é movimento momentâneo. Ela pode gerar pico, pode gerar visibilidade rápida, mas raramente sustenta uma carreira. Viver exclusivamente de tendências é quase como tentar viver de ganhar na loteria — você pode acertar uma vez, mas não constrói estabilidade com isso.
Já um branding forte cria unidade e consistência. Ele mantém o projeto coerente independentemente das ondas do mercado. Quando existe identidade clara, o público não acompanha apenas porque está “na moda”, mas porque se identifica com o universo do artista.
Que conselho estratégico você daria para artistas que estão começando agora?
Eu diria para prestar muita atenção na construção da própria marca desde o início. Porque, além de ser a forma como as pessoas vão perceber e se relacionar com você, ela provavelmente será o seu maior ativo de carreira. É a marca que abre portas. Ela é o que possibilita ocupar os palcos que você deseja, lançar pelas gravadoras que fazem sentido para sua estética, dividir lineups com os artistas que você admira e fechar parcerias com empresas, editoriais e outras marcas.
Se a sua identidade é forte e coerente, você passa a fazer sentido dentro de outros ecossistemas. E quando há alinhamento entre marcas, os convites começam a acontecer de forma mais natural. Por isso, mais do que proteger apenas a sua música, você precisa proteger seus valores, sua narrativa e sua coerência. Marca não é detalhe.
Imagem de capa: Divulgação.
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