Do rock à house, do manguebeat à disco: o caldeirão cultural do pernambucano Infa Vermelho
Há mais de 20 anos ativo na cena musical pernambucana – tanto em bandas quanto como DJ e produtor – Rafael Infa lançou seu projeto artístico Infa Vermelho há cerca de dois anos, misturando música brasileira, africana, latina, disco, funk, Miami bass, rock e sonoridades tradicionais de Pernambuco em um universo eletrônico da disco/house pensado para a pista de dança.
Na última quinta-feira (14), ele, que já vinha viajando pelo mundo com seu trabalho, veio com o primeiro lançamento oficial: um remix para “Me Dê”, do cantor e compositor Martins – canção bastante popular no Recife. A faixa, feita em collab com coriscomusic, chegou pelo Selo Estelita em parceria com a Deck Disc.
A partir de então, conversamos com Infa para saber mais sobre seu primeiro release musical, sua trajetória e referências. Confira!
“Me Dê” já era uma música muito forte dentro da cena pernambucana. Em que momento você percebeu que ela poderia funcionar também dentro de uma linguagem mais disco/house?
Eu já conhecia o trabalho de Martins há algum tempo e sempre admirei muito “Me Dê”. O que sempre me chamou atenção nela foi a força da percussão, principalmente essa influência de ijexá, que é um elemento com o qual eu gosto muito de trabalhar. Eu tenho uma relação forte com ritmos percussivos e sempre procuro trazer isso para a música eletrônica de uma forma mais orgânica.
Quando você começa a desenvolver um projeto de remix ou pensar num repertório para tocar e produzir, acaba naturalmente ouvindo músicas já imaginando como elas funcionariam dentro de um determinado BPM, de um groove ou de uma estética específica.
“Me Dê” foi uma dessas. No Carnaval ela toca muito aqui em Recife, então eu já a tinha muito presente na cabeça. E comecei a perceber que ela estava muito próxima de um BPM que eu gosto bastante de trabalhar, ali na faixa dos 120, que encaixa perfeitamente numa linguagem disco/house.
A partir daí, comecei a imaginar possibilidades: manter a guitarra original, criar um baixo novo mais orgânico, reforçar os grooves percussivos… Tudo parecia encaixar muito naturalmente. Então, quando comecei a pensar no que faria parte desse primeiro momento do projeto, ela foi uma das primeiras músicas que vieram à cabeça.
E aí aconteceu uma coincidência muito boa: o DJ Neto, o coriscomusic, chegou com essa mesma ideia. Ele também já estava experimentando remixes de músicas pernambucanas e tinha começado a trabalhar em “Me Dê”. A gente já trabalha junto há muito tempo, existe uma sintonia musical muito forte, e parecia uma música perfeita para inaugurar essa fase.
Conte mais sobre sua trajetória na música até lançar o Infa Vermelho. O que mudou para que você recomeçasse com esse projeto?
Eu comecei muito novo tocando em bandas de rock aqui em Recife, mas a cidade sempre teve uma mistura musical muito particular. Acho que esse é um dos grandes legados do manguebeat: você sai para ver um show de rock e encontra um maracatu passando na rua, uma orquestra de frevo tocando em outro canto e uma festa de música eletrônica acontecendo logo ali. Tudo misturado, inclusive o público. Isso influenciou completamente minha formação.
Sempre estive muito próximo da música eletrônica, das raves, dos clubes underground e também do manguebeat e da cultura popular pernambucana.
Depois, comecei também a trabalhar produzindo eventos, o que ampliou ainda mais essa bagagem. Produzi festas e shows de estilos muito diferentes, desde eventos de música eletrônica, como a Liquid Sky e produções ligadas ao universo psytrance, até festas e shows de rock, reggae e manguebeat. Também participei de produções importantes, como o Só Track Boa Recife e Wehoo Festival, e tive a oportunidade de trabalhar com bandas como Natiruts e Mundo Livre S/A.
Eu já tocava como seletor há mais de dez anos como Rafael Infa, mas só depois de mergulhar mais profundamente no estudo de produção musical, mixagem e construção sonora foi que senti que tinha encontrado uma identidade própria. A partir daí, resolvi assumir oficialmente o projeto Infa Vermelho.
Ele existe há cerca de dois anos e agora entra justamente numa nova fase, com os primeiros lançamentos oficiais.
Você acha que o público europeu recebe de forma diferente esse tipo de som tropical e percussivo vindo do Brasil? O que mais te chamou atenção nas apresentações que fez fora do país?
Nesses quase dois anos de projeto, tive a oportunidade de participar de eventos muito importantes, como o Réveillon Carneiros, o Pernambuco Meu País e o Réveillon Maracaípe. Também fiz apresentações em São Paulo, ganhei contests importantes, como o da House Mag, e um dos pontos altos desse início de trajetória foi conseguir levar o projeto para a Europa, com apresentações em Portugal, França e Espanha.
Eu vi na prática que existe um interesse muito forte do público europeu pela brasilidade e pelos sons tropicais vindos do Brasil. Na França, por exemplo, alguns dos DJs e produtores que mais admiro trabalham muito com referências brasileiras, então existe uma troca cultural muito forte. A gente consome muito da cena eletrônica europeia, mas eles também têm uma curiosidade e uma admiração muito grandes pela música brasileira.
Ao mesmo tempo, senti que o som que levei tinha uma identidade própria. O funk e o phonk brasileiros já são bem conhecidos por lá, mas meu som é um groove mais carregado de percussão e muitas referências das culturas tradicionais de Recife e de Pernambuco, elementos que talvez não cheguem tão facilmente lá fora, embora o próprio manguebeat já tenha aberto muitas portas nesse sentido.
A recepção foi muito positiva e isso me mostrou que existe espaço para uma música eletrônica brasileira mais orgânica, percussiva e conectada com nossas raízes culturais.
Seu trabalho parece ter uma preocupação forte em manter calor humano dentro da música eletrônica, especialmente através de instrumentos e texturas orgânicas. É algo que você sente falta na música eletrônica atual?
Eu tenho essa preocupação muito por conta da minha formação musical. Venho dessa escola de tocar instrumentos, de conviver muito com grupos de percussão e com manifestações da cultura popular pernambucana, como maracatu, caboclinho e cavalo-marinho. São expressões muito orgânicas, muito ligadas ao corpo e à raiz cultural.
Ao mesmo tempo, também venho de bandas com instrumentos elétricos, guitarra, baixo, teclado, sintetizadores. Então acho que meu trabalho acaba surgindo naturalmente desse encontro entre o orgânico e o eletrônico.
Claro que essa mistura não é exatamente uma novidade. Existem muitos projetos incríveis no mundo inteiro trabalhando essa relação entre música eletrônica e elementos orgânicos. Eu não acho que estou inventando a roda, mas procuro fazer isso do meu jeito, dentro das minhas referências e da minha vivência cultural.
Depois desse primeiro lançamento, qual é o seu principal objetivo nos próximos meses?
O planejamento agora é lançar mais dois ou três singles, entre faixas autorais e novos remixes, e ainda este ano apresentar o primeiro EP do projeto, que vai se chamar “Vermelho é a Cor Mais Quente”.
Além dos lançamentos, a ideia é continuar levando o projeto para a pista e circulando o máximo possível. Também estamos desenvolvendo um formato live do Infa Vermelho, trazendo essas músicas para uma apresentação mais ao vivo, misturando performance eletrônica com elementos orgânicos.
O principal objetivo é seguir fortalecendo o projeto, fazer turnês, tocar em novos lugares e levar esse som para o maior número possível de pessoas. No fim das contas, é isso que eu mais gosto de fazer: viajar para fazer som e me conectar com pessoas através da cultura e da música.
Imagem de capa: Divulgação/@pedroescobaz
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