O músico e compositor Mateus Paludetti apresenta “Aquático”, primeiro single de seu próximo álbum, Teiurutau. Criada em 2014 e lançada originalmente no disco Exoesqueletos, sampledelia e criaturas rurais (2020), a canção ganha agora uma nova versão e se conecta diretamente ao universo conceitual do próximo trabalho.
Em Teiurutau, o teiú - grande lagarto brasileiro - aparece como uma espécie de parente distante e figura recorrente no imaginário de Paludetti. No interior paulista, onde o músico vive, setembro marca o período em que esses animais começam a sair da dormência e voltar a aparecer nas estradas, ruas e áreas rurais.
A relação entre humanos e répteis em “Aquático” parte de uma referência à chamada teoria do cérebro trino, formulada pelo neurocientista Paul MacLean e popularizada nas décadas de 1970 e 1980. Embora hoje considerada cientificamente ultrapassada, a ideia de um “cérebro reptiliano” permanece, para Paludetti, como uma metáfora para pensar uma dimensão ancestral, instintiva e animal da experiência humana.
Mais do que uma reflexão científica, porém, “Aquático” é uma canção sobre desejo, água e amor. A faixa foi composta a partir de imagens ligadas às margens dos rios e cachoeiras do interior paulista, espaços de encontro, memória e descoberta. O parentesco entre humanos e lagartos se transforma em uma brincadeira com nossa própria condição animal, entre o instinto, o desejo e aquilo que permanece oculto sob as camadas da consciência.
“Em ‘Aquático’, quando foi feita, havia uma dimensão erótica, um erotismo selvagem. Não é nada sobre teorias científicas ultrapassadas, no fim das contas, mas sobre desejo e situações de amor na beira do rio. ‘Troca de pele, baby, vem / sabe que eu só gosto assim...’. ‘Aquático’ é uma canção de amor”
Explica o músico.A água também ocupa um lugar central nesse imaginário. Desde criança, Paludetti conta que é fascinado por represas, rios e pelo que existe sob a superfície - pelo desconhecido, pelo que permanece oculto e pode subitamente aparecer e desaparecer. Na canção, o mergulho se torna uma imagem de retorno à origem, ao corpo e ao instinto.
“Teorias obsoletas à parte, nossa origem comum está na água. Sejam Homo sapiens ou Salvator merianae, partilhamos, em algum ponto muito remoto da nossa história na Terra, um ancestral comum aquático”
Sintetiza.Musicalmente, a faixa retoma uma fase da trajetória de Paludetti marcada pela exploração de síntese digital, arranjos eletrônicos e ritmos de pista. O resultado é o que o próprio artista define como uma “música eletrônica caipira”, em que sintetizadores digitais, guitarras, vocoder e referências ao synth pop se encontram com o universo rural e contemporâneo do interior paulista. Entre as referências estão Kraftwerk, New Order e ecos da vanguarda paulista. As guitarras, gravadas originalmente em 2020, preservam uma abordagem deliberadamente ingênua, enquanto a nova versão incorpora vocoder à voz do refrão.
O projeto "Teiurutau Expandido" foi realizado com apoio do Programa de Ação Cultural – ProAC Editais, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas doGoverno do Estado de São Paulo, e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) do Ministério da Cultura e Governo Federal.
Imagem de capa: Divulgação.
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