Como Artistikk desafiou convenções da música eletrônica ao unir luta indígena, funk e violino em uma pista lotada no HM Festival
Há momentos em que um DJ deixa de simplesmente conduzir uma pista e passa a construir, diante dela, uma experiência que dificilmente caberia em um set convencional. Foi o que Artistikk fez no House Mag Festival 2026, ao transformar sua apresentação em um encontro entre música eletrônica, cultura indígena, improvisação e instrumentos tocados ao vivo.
Das 03h30 às 04h30, o artista transitou entre progressive house e indie dance, mantendo a pista que havia recebido de Miane aquecida do começo ao fim – estava tão cheia que, em determinado momento, já era difícil conseguir entrar.
Mas se uma das grandes forças daquela apresentação foi a seleção musical que deixou a pista aquecida do início ao fim, o que mais chamou atenção foi justamente aquilo que fugiu do roteiro: ao longo do set, ele abriu espaço para Eric Terena e KÁ Seixas construírem novas camadas sonoras em tempo real, levando para um dos horários mais disputados do festival uma proposta que misturava diferentes perspectivas dentro da música eletrônica.
Artista indígena, DJ, produtor e músico, o sul-mato-grossense Eric subiu ao palco para tocar pela primeira vez naquela formação, utilizando uma bateria eletrônica. A participação acrescentou uma dimensão performática ao set e reforçou uma conexão que já vinha sendo construída em estúdio.
Com um violino iluminado, a aparição da amazonense KÁ Seixas também deu o que falar. A artista, que transita entre música eletrônica e referências sonoras ligadas às culturas do Norte do Brasil, passou a criar arranjos ao vivo sobre as bases de Artistikk (incluindo batidas de funk), respondendo à música em tempo real.
O resultado foi uma live improvisada que alterou a própria dinâmica da pista, e que ganhou ainda mais impacto quando, já na parte final, os três artistas estiveram juntos no palco.
A apresentação cresceu progressivamente, sem abandonar a pista de dança, mas permitindo que elementos que normalmente aparecem separados – sintetizadores, grooves, bateria eletrônica, violino e referências indígenas e amazônicas – ocupassem o mesmo espaço. E havia uma mensagem conduzindo esse percurso.
“Waha Dakra”: quando a pista também vira território
Um dos fios condutores da apresentação foi “Waha Dakra”, track ainda não lançada de Artistikk em collab com Mark Ursa e Eric Terena, além da participação vocal de Artemisa Xakriabá, artista indígena do povo Xakriabá.
Colocando a música eletrônica a serviço de uma discussão sobre território, ancestralidade e preservação da Terra, a produção aproxima sintetizadores de progressive techno de elementos tradicionais, transformando a pista em espaço de afirmação.
“Waha Dakra” ajudou a dar sentido à seleção musical apresentada por Artistikk no festival. Sua mensagem – “o futuro não é colonial; o futuro é ancestral” – serviu como uma espécie de eixo conceitual para um set que, progressivamente, aproximou a música eletrônica de outras formas de expressão e de uma discussão sobre a luta indígena no Brasil.
O risco de abrir espaço
Há também uma dimensão importante na escolha de dividir a apresentação no House Mag Festival com Eric Terena e KÁ Seixas. Afinal, quanto maior a visibilidade de um artista, maior costuma ser a pressão para transformar cada horário de festival em uma apresentação previsível e controlada.
Artistikk fez o movimento contrário. Em seu primeiro horário nobre em um festival desse tamanho, decidiu compartilhar o espaço com dois artistas e confiar que eles construiriam suas próprias intervenções em tempo real, de maneira improvisada.
No final das contas, o DJ usou um horário de destaque para testar até onde uma apresentação de música eletrônica pode ir quando existe disposição para dividir o protagonismo, assumir riscos e permitir que a improvisação faça parte da construção.
Essa abertura é especialmente significativa porque amplia a ideia de diversidade para além da composição de um lineup. E Artistikk não precisou abandonar sua própria identidade para fazer isso.
Uma trajetória cada vez mais sólida
Seu trabalho vem sendo construído justamente a partir da combinação entre progressive, indie dance e texturas rítmicas influenciadas por diferentes culturas. Com mais de dois milhões de streams nas plataformas digitais, presença recorrente nos charts do Beatport e suporte de nomes como David Guetta, o brasileiro vem consolidando uma assinatura própria dentro da nova geração da música eletrônica nacional.
Seu currículo também inclui apresentações ao lado de Alok, Bob Sinclar, Steve Angello e Vintage Culture, além de passagens por eventos e clubes como Warung Tour, Surreal Park, Federal Music, D-EDGE, P12, Milk Jurerê, Cafe de La Musique e Pink Elephant.
Imagem de capa: Divulgação / @thiagodorscheid.
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