Mãe, filha e a pista de dança: como a paixão pela música eletrônica reescreveu uma história de família
Leanes tinha menos de dez anos quando sua mãe, Ju Giorni, colocava aquelas coletâneas cheias de videoclipes de *música eletrônica* para tocar enquanto as duas limpavam a casa em Mato Grosso.
"L’Amour Toujours" de Gigi D’Agostino se tornava uma memória afetiva, e ali, num momento completamente comum do dia a dia, as duas começavam a despertar algo especial. Anos mais tarde, essa mesma música seria escolhida por Ju para tocar na sua formatura da faculdade.
Quando Leanes descobriu a Tomorrowland pela internet, começou a mostrar tudo para a mãe - os palcos, os sets, a multidão - repetindo o tempo inteiro que um dia as duas precisavam ir juntas. Então, antes mesmo de pisarem num festival, elas já se imaginavam lá dividindo esse momento.
A virada de chave aconteceu em 2015, quando Leanes foi sozinha à Tomorrowland Brasil. Voltou para casa “completamente maluca” e com uma certeza: a mãe precisava viver aquilo também. No ano seguinte, as duas embarcaram nessa aventura, e o que aconteceu ali dentro foi além da música.
"Minha mãe se encantou não só com a música ou com o festival, mas com tudo o que acontecia ali dentro: o carinho, a liberdade, as pessoas, aquela sensação de estar viva e de pertencer a alguma coisa”
Disse LeaneO momento que as duas guardam com mais carinho foi o set de Gui Boratto, quando ele tocou "Beautiful Life":
“Foi uma coisa de outro mundo. Não foi apenas a música. Era o lugar, nós duas ali juntas, tudo o que já tínhamos sonhado antes daquele dia.”
Disseram.Cerca de 40 dias depois do festival, mãe e filha deixaram o Mato Grosso e foram morar em São Paulo para colocar na rotina as experiências que fizeram elas se sentirem vivas.
Na pista, os papéis não desaparecem, mas ficam mais leves. O cuidado continua, mas existe também liberdade: nenhuma controla a outra, cada uma vive a experiência do seu jeito.
Há momentos em que voltam naturalmente para os postos de mãe e filha. E há vezes em que simplesmente viram parceiras, dançando, rindo, vivendo aquilo como duas pessoas que gostam da mesma coisa.
“A linha é muito tênue e tem que ter muita sabedoria e maturidade para não misturar as duas coisas.”
Revelam.O que chama atenção nessa história não é só a cumplicidade entre elas, é o que a pista revelou de cada uma para a outra.
Leanes cresceu vendo a mãe carregar sozinha as responsabilidades da maternidade solo. E foi na música eletrônica que encontrou uma versão dela que o cotidiano quase não deixava aparecer: intensa, livre, fantasiada e dançando sem limites.
“A música eletrônica me permitiu enxergar minha mãe como mulher, na individualidade dela. Ela tem os próprios DJs que ama, as músicas dela, o jeito dela de dançar, os momentos dela.”
Explicou Leanes.Ju não pensa duas vezes quando perguntada sobre o que a pista representa:
"A música eletrônica me faz ter vontade de viver mais. Ali eu esqueço tudo que é ruim. É um mundo cheio de risos, alegria, pessoas que falam a mesma língua que você. É minha dose de serotonina.”
Compartilha.E quando alguém a questiona o que uma mãe faz num festival, a resposta também é direta:
“Idade são números. Dentro de mim tem uma menina livre, alegre, cheia de energia. (...) Mulheres: vivam o que lhes faz bem. Você é mãe e tem números a mais, mas você é mulher — viva!”
Completa.Essa disposição para viver novas experiências levou Ju a realizar outro grande sonho: conhecer o Burning Man.
A viagem aconteceu sem Leanes. Ela conta que ficou com receio de que a filha considerasse a viagem perigosa ou tentasse convencê-la a desistir. Por isso, decidiu organizar tudo durante anos antes de contar que estava indo.
No amanhecer do deserto, ouvindo RÜFÜS DU SOL, havia só uma coisa em que conseguia pensar: “A Le podia estar aqui sentindo o que eu estou sentindo.”
Ela não estava lá, mas estava em pensamento o tempo todo. E o sonho de irem juntas ainda está na lista.
A história de Ju e Leanes mostra que a pista de dança pode criar vínculos muito mais fortes do que imaginamos. Para elas, tornou-se um espaço de convivência, descoberta e liberdade, no qual mãe e filha compartilham emoções de uma forma que nunca conseguiriam em casa.
"A vida não precisa ficar menor conforme a gente envelhece” — essa é a maior lição que Leanes diz ter aprendido vendo a mãe viver a música eletrônica do jeito que vive.
Acompanhe as próximas jornadas de Ju e Leanes em seus perfis no Instagram.
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