Sabe aquele momento que você está numa festa, o DJ toca uma música conhecida e, de repente, inúmeros celulares aparecem no alto? Isso tem se tornado cada vez mais comum nos shows ao vivo e não tem passado despercebido pelo público.
Uma pesquisa de público realizada pela Play BPM revelou que 74,4% dos entrevistados acreditam que as pistas estão dançando menos. Entre os fatores mais citados estão o uso frequente de celulares, a chegada de novos públicos menos familiarizados com a cultura clubber, a fragmentação dos espaços (como as áreas VIP) e o foco crescente no registro visual da experiência.
Mas antes de concluir que “as pessoas não dançam mais”, talvez seja necessário fazer uma pergunta mais difícil: o que significa estar presente em uma pista de dança hoje?
A realidade que muita gente não aceita
Transformar essa discussão em uma guerra contra os celulares seria o óbvio, mas nós vamos além.
A maneira como nos relacionamos com o mundo mudou profundamente na última década. Hoje, praticamente tudo passa por uma tela: comunicação, trabalho, entretenimento, amizades, relacionamentos, música e até a forma como construímos nossa própria imagem. A experiência presencial passou a conviver com uma segunda camada digital.
Não basta apenas viver alguma coisa. Existe também a possibilidade (e muitas vezes a expectativa) de registrar, compartilhar e transformar aquilo em conteúdo. Nesse contexto, a pista de dança não ficou imune.
Uma festa passou a ser, ao mesmo tempo, experiência e cenário. Você não está apenas curtindo a música, pode estar fazendo stories, compartilhando no Whatsapp, procurando o nome da faixa ou guardando aquele instante para rever depois. E existe uma ironia aí.
Uma pesquisa recente com 2.000 frequentadores de clubes mostrou que 50% acreditam que os celulares estão prejudicando a experiência da pista, mas 55% admitem usar seus aparelhos enquanto dançam. Ou seja: muita gente reconhece o problema enquanto participa dele.
Mas será que estamos dançando menos?
É importante ressaltar que a pista de dança nunca foi ocupada por pessoas que estavam ali somente para dançar. Algumas vão pelas interações pessoais, outras para beber ou simplesmente estar naquele ambiente - e isso sempre existiu.
Gerações diferentes chegam às pistas com comportamentos diferentes, e aquilo que uma geração considera natural pode parecer estranho para outra. Então talvez exista, sim, um pouco de saudade do passado nessa discussão.
A diferença é que hoje a pista disputa nossa atenção com algo que não existia antes: um aparelho capaz de nos distrair facilmente.
Dançar exige entrega, é uma experiência física e muitas vezes até inconsciente. Por outro lado, filmar exige atenção. Você precisa manter o celular estável, olhar para a tela, escolher o enquadramento e pensar no que está acontecendo através da câmera.
São dois modos bastante diferentes de experimentar a mesma música.
A estrela do hard techno NOVAH resumiu essa contradição ao dizer que “você não consegue aproveitar a música enquanto está filmando”. Ela própria reconhece a importância da internet para sua carreira, mas diz se sentir triste ao ver pessoas passando boa parte da pista registrando tudo em vez de simplesmente viver o momento.
Solomun seguiu uma linha parecida ao observar que estamos com cada vez mais dificuldade de permanecer no presente sem pensar nas redes sociais.
O celular também é parte da cultura atual
O mesmo celular que tira atenção do público também é uma das principais portas de entrada para ela. É pelo Instagram que muita gente descobre um DJ. É pelo TikTok que uma faixa viraliza. É pelo YouTube que alguém encontra um set novo. É pelas redes sociais que uma festa se torna conhecida. E é pelo celular que o público acompanha um artista antes de decidir comprar um ingresso para vê-lo ao vivo.
A própria pesquisa da Play BPM aponta para isso: durante a pandemia, uma parcela do público mais novo passou a conhecer a música eletrônica primeiro pelo ambiente digital, por lives e conteúdos online, antes de experimentar uma festa pela primeira vez.
Ou seja: os celulares ajudam a colocar as pessoas dentro da pista e, ao mesmo tempo, competem pela atenção delas quando elas chegam lá.
A resposta do mercado
Ainda assim, uma reação interessante começou a aparecer nos últimos anos.
A ‘No Phone Policy’ — que vai de pedidos para colar adesivo na câmera a bolsinhas lacradas na entrada dos eventos — ganhou adesão em clubs de Ibiza como o Pikes, Tomodachi e o Nocturna. No Brasil, a ERRORR e a Outworld se consolidaram como referências que apostam nessa filosofia, criando experiências de imersão em que a música é o centro absoluto da noite.
A residência da Solid Grooves no DC-10, também em Ibiza, se tornou um sucesso ao transformar o ambiente em torno da pista. O projeto Our House, de Meduza e James Hype, levou para vários países a essência do que um clube deveria ser: a desconexão com o mundo externo.
Uma luta que deve estar perdida
Talvez o celular seja a primeira tecnologia capaz de disputar diretamente com a música a nossa atenção enquanto estamos vivendo a experiência musical.
Provavelmente nunca voltaremos a ter uma pista completamente focada no som. Estamos falando de uma geração que cresceu conectada - e as próximas serão ainda mais.
Os jovens estão chegando às pistas com o celular já integrado à forma de existir no mundo. O instinto de registrar faz parte de como as pessoas constroem identidade e pertencimento hoje.
O que parece estar acontecendo é uma transformação no significado de "estar na pista". Para uma parcela do público, a experiência não é mais vivida apenas de dentro, ela é também narrada para fora. Isso não é necessariamente uma degeneração da cultura clubber, mas talvez seja uma versão diferente dela — mais fragmentada, mais exposta e mais mediada.
O que está faltando na cena?
A grande questão não é fazer as pessoas abandonarem os celulares, mas tentar criar espaços onde elas sintam vontade de fazer isso.
Existe uma diferença enorme entre ser proibido de usar o celular e não sentir necessidade de usá-lo.
Quando a música, o sistema de som, a iluminação, a curadoria, o espaço e o público trabalham juntos para criar uma experiência realmente imersiva, registrar os momentos pode perder a importância.
E isso explica por que algumas experiências ''No Phone' funcionam. Não porque o público magicamente voltou a ser o dos anos 90, mas porque o ambiente cria condições para que a atenção volte para onde realmente deveria estar.
No fim das contas, o questionamento mais interessante não é: “Você usa o celular pra registrar shows?”, mas sim: “Quando foi a última vez que você esqueceu que estava com um celular no bolso numa festa?”
Talvez seja justamente nesse momento bem específico que a pista de dança ainda encontre sua forma mais pura de existir.
Imagem de capa: Reprodução.
Sobre o autor
Caio Pamponét
Formado em jornalismo pela UFBA e Redator/Social Media da Play BPM. Um apaixonado por música desde a infância que cultiva o sonho de viajar pelo mundo fazendo o que ama e conhecendo novas culturas. Respiro os mais diversos BPM's e faço da música o seu combustível diário.
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