Muitos que frequentam a cena eletrônica nem imaginam, mas Tessuto, o criador da Carlos Capslock, jogava basquete profissionalmente pelo Esporte Clube Pinheiros quando, aos 16 anos, ainda vivia na república de jogadores do clube. Foi lá que teve seus primeiros contatos com a cena clubber em lugares como o Lov.e e o D-EDGE. Em 2008, com o dinheiro da rescisão de um emprego em uma loja de shopping, comprou seus primeiros toca-discos e começou a organizar algumas festas.
Os primeiros anos foram marcados pela fundação da festa Plastik e por uma colaboração com o coletivo Voodoohop, onde ajudou a redefinir a ocupação de espaços urbanos negligenciados em São Paulo. Entre 2010 e 2015, consolidou sua técnica como residente do D-EDGE e durante esse período fez sua primeira turnê europeia, com nove apresentações em Berlim. Desde então, rodou o continente mais algumas vezes, passando por Londres, Paris, Istambul, Bruxelas, Viena, Malta e Rotterdam.
Mas tudo mudou em 15 de dezembro de 2010. Uma piada interna entre amigos em um after-hours deu origem ao personagem Carlos Capslock — um nerd satírico de óculos que rapidamente se transformou em crítico ácido da hiperconectividade digital nas redes sociais. A festa homônima surgiu sob o conceito de "esquizofrênese", uma ferramenta para romper com o formalismo dos clubes e promover a liberdade radical como forma de resistência.
O que começou como uma squat party na Trackers evoluiu para um movimento que ocupava marcos históricos de São Paulo: o Edifício Martinelli, o Elevado (Minhocão), a Fabriketa, o Viaduto Santa Ifigênia, entre outros locais. Cada ocupação era um ato de apropriação urbana, uma forma de dizer que aqueles espaços também pertenciam à cena. Assim, a festa se consolidou como um dos eventos mais influentes do cenário eletrônico nacional, conhecido por suas locações inusitadas e um clima de liberdade que transborda expressão artística.
Nesse contexto de ocupação e resistência, Tessuto adotou a montação drag como uma postura política contra o preconceito no Brasil. Inspirado pela ball culture de Nova York e por figuras como Divine e sua própria mãe, Ronalda Bi, ele transformou a cabine de DJ em um espaço de desconstrução de gêneros e em um ato de enfrentamento que colocava a Capslock em um lugar único dentro da cena eletrônica brasileira.
Ao longo do tempo, essa postura política se expandiu para outras frentes. A Capslock funcionou como plataforma de arrecadação para movimentos de moradia, implementando políticas de ingressos em troca de livros que ajudaram a fundar bibliotecas em ocupações urbanas e também promoveu workshops gratuitos de produção musical para populações vulneráveis antes do início dos eventos.
Paralelamente ao trabalho desenvolvido na Capslock, sua carreira como DJ e produtor ganhava projeção nacional e internacional. Em 2016, fundou o selo MEMNTGN Records ao lado de L_cio e Zopelar, que pouco tempo depois passou a ser distribuído pela Kompakt, colocando a produção independente brasileira nas vitrines europeias. Também estampou seu nome em outros selos como D.O.C., Nice & Deadly e Massa Records.
Musicalmente, seu som ganhou cada vez mais identidade, transitando entre techno, house, acid e electro, com mixagens e seleções ousadas que desafiam os padrões convencionais. Todo esse histórico junto com sua identidade autêntica o levou a se apresentar nos principais festivais do Brasil, como Dekmantel, Time Warp, DGTL, Universo Paralello, Rock In Rio, The Town e Tomorrowland, e também em uma edição da Boudica, iniciativa liderada por Samantha Togni dedicada à visibilidade de artistas mulheres, trans+ e não-binárias na música eletrônica.
Dando sequência à essa trajetória, no dia 19 de junho, a Carlos Capslock celebra 15 anos com um festival de três pistas na Rua João Rudge, 115, em São Paulo. O lineup inclui Radio Slave, Batu e a própria Samantha Togni como convidados internacionais, além de Renato Cohen, BADSISTA, Carlos do Complexo, Ananda, IDLIBRA, L_cio, Kenya20Hz, Ella de Vuono e J. Catriel. Entre DJs e performers, são mais de 30 nomes presentes, uma curadoria que reflete a filosofia da festa: aproximar pesquisas musicais distintas dentro de uma mesma experiência.
Hoje, Tessuto segue em constante evolução, moldando a cena com sua energia contagiante, repertório sofisticado e uma capacidade única de transformar cada pista em uma experiência inesquecível. Para ele, a Capslock sempre foi um espaço onde música, política, arte e cidade se encontram, e quinze anos depois, ela segue fazendo exatamente isso: ocupando espaços e transformando narrativas.
Imagem de capa: Divulgação.
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